A mulher moderna e o moderno machismo
“(...) Os olhos tristes e desesperados de minha amiga dirigem esta pergunta à vida. Todo o sofrimento, todo o horror, toda a dor causada pelo inimigo ainda não vencido- a falta de trabalho- fundem-se nesse olhar: o olhar da mulher que luta contra a velha e decadente ordem da vida... Ela se foi, mas o seu olhar perseguia-me. Este olhar exige uma resposta,estimula a ação, ao trabalho construtivo, mas também à luta.”( Alexandra Kollontai - Irmãs)
Quem são as mulheres? Quem são as mulheres modernas? Que espécie de sociedade as criou e de que forma foram criadas? Quando, como, e por que as mulheres são admitidas no mercado de trabalho? As mulheres modernas são imagem e semelhanças das mulheres de outrora, ou são novas mulheres, incomparáveis? Essas são apenas algumas das perguntas, que nós mulheres que vivemos sob a nova espécie de mulher denominada “mulher moderna” nem sempre conseguimos responder. Debruçar-se sobre elas nos parece fundamental, mas, as dificuldades criadas pela dor da desconstrução do nosso lugar na história – o lugar da invisibilidade - nem sempre torna a tarefa fácil.
Desmitificar todo o símbolo que está por trás da idéia das “mulheres modernas”, e da propaganda de que as mulheres já estão com as garantias de sua inserção além de ser duro, nos revela a nova face da antiga opressão.
Na verdade, indo direto ao ponto, e resumindo todo o texto que trabalharemos daqui para frente, nós, as “mulheres modernas” somos as mulheres modernamente exploradas e oprimidas, ou seja, novas mulheres, encaixadas na antiga fórmula da opressão. As mudanças e alterações visíveis que decorrem da entrada das mulheres no mercado de trabalho não nos brindou, certamente, com uma nova vida.
Somos o reflexo da imagem de todas as mulheres, e a modernidade é exclusivamente dada pela nova fase do sistema capitalista e não em novas relações humanas igualitárias. Nos apropriar desse debate é fundamental para que nossas linhas de ação e construção não fiquem na clandestinidade e no estigma da vitimização.
O nosso debate mais profundo da situação em que vive a maioria das mulheres hoje, e portanto, as mulheres trabalhadoras, deve ser iniciativa constante, para não perdermos de vista que libertação das mulheres depende, sempre, da modificação radical do sistema que vivemos, ou seja, o fim da sociedade capitalista.
Transformação no mundo do trabalho e desigualdade entre gêneros O tipo da mulher estabelecida em determinados momentos históricos, está em relação direta com o grau de desenvolvimento econômico por que atravessa a sociedade. Ao mesmo tempo em que se experimentam modificações nas condições econômicas com a evolução das relações de produção, experimentam-se mudanças nos aspectos comportamentais das mulheres.
A mulher moderna, como tipo (e eu direi, como “tipo ideal”) não poderia surgir a não ser com o aumento quantitativo da força de trabalho feminino assalariado, e da inserção em massa das mulheres no mercado de trabalho. Mas, apesar das reconhecidas transformações por que tem passado a situação das mulheres em relação a sua participação no mercado de trabalho e nas conquistas de direitos civis e políticos, persiste, evidente e visivelmente, uma diferença gritante na inserção produtiva entre os gêneros.
Em primeiro lugar, não podemos deixar de lado que, a recente inserção feminina no mercado de trabalho brasileiro tem acontecido num quadro econômico hostil, em que os interesses do capital prevalecem cada vez mais sobre os do trabalho, quadro em que assistimos em todo o mundo a altas taxas de desemprego, precarização da condição do trabalho e da vida humana, flexibilização e terceirização, queda de rendimentos e ataques às conquistas de direitos trabalhistas.
Portanto, a inserção das mulheres se dá em um contexto mais que adverso. Ainda se soma a esse quadro uma cultura econômica centrada no poder masculino, reflexo da construção social da divisão sexual do trabalho. Em condições tão adversas, encontraremos evidentemente extrema desigualdade na inserção produtiva entre os diferentes gêneros, assim como a fundamento fundamental dessa inserção é, justamente, a possibilidade da super-exploração.
Um debate mais de fundo, introduzido por Helena Hirata, constata que a inserção das mulheres no mundo do trabalho acontece sob a lógica do trabalho produtivo enquanto não se modificam suas tarefas no espaço reprodutivo. Portanto, para ela, tal realidade não é suficiente para construir um novo paradigma de divisão sexual do trabalho- mulheres responsáveis pelo trabalho reprodutivo e homens pelos produtivos para que as tarefas reprodutivas não sejam de responsabilidade do capital, e que, portanto, esse lucre cada vez mais-, base fundante da exploração das mulheres e fator central do poder que os homens exercem sobre elas. Ou seja, nesse sentido, a inserção das mulheres no mercado de trabalho se dá como novas cenas de antigas personagens, ou seja, mais do mesmo. Mais exploração e maior desigualdade.
Além das desigualdades que analisaremos nas estatísticas em relação à diferenciação entre os gêneros, constataremos uma desigualdade ainda mais alarmante nos dados sobre mulheres negras. Isso além, é claro, das diferenças entre as regiões do país, debate sobre o qual não nos debruçaremos. Os dados do relatório mais recente do DIEESE (2005) sobre inserção feminina no mercado de trabalho, demonstram que a participação das mulheres significa entre 43,2% (Recife) e 58,6% (DF) do total da força de trabalho nas regiões metropolitanas. Mas a maior presença no mercado não se reverte, por si só, em sucesso na inserção, e a despeito da crescente participação as mulheres ainda apresentam taxas de desemprego sistematicamente superiores às dos homens, variando entre 53 e 56% do total de desempregados.
Além disso, as taxas de desemprego feminino apresentaram variação maior de elevação se comparadas às masculinas entre os anos de 1998 e 2004. Nas ocupações de inserção vulnerável a sujeição das mulheres é maior que a dos homens. O índice aqui apresentado é de que 40% de todas as trabalhadoras do Brasil se encontram em situação precária de emprego.
Dentre as ocupações, mais de 15% das trabalhadoras estão em empregos domésticos, e significam um total de 50 a 60% dos empregados no setor de serviços. Embora ocupem 43,8% dos cargos públicos federais, o índice cai para 13% nos cargos comissionados mais importantes. Já o relatório apresentado pelo governo brasileiro em 2005, demonstra que os rendimentos das mulheres significam 60% do valor dos salários dos homens. Se compararmos a relação do salário com o das mulheres afro-descendentes, a situação é ainda mais dramática.
O relatório apresentado pelo Brasil ao Comitê CEDAW revela que “os rendimentos das mulheres não brancas chegam a ser 70% inferiores aos rendimentos dos homens brancos e 53% inferiores aos rendimentos das mulheres brancas. São também 40% inferiores aos rendimentos dos homens não-brancos.” Essa realidade tem levado muitos teóricos a afirmar que está em curso um processo de “feminização da pobreza”, pela real desigualdade de salários entre homens e mulheres, e pelo crescimento do número de famílias que são “chefiadas” por mulheres – que chegam hoje ao total de 28,8% das famílias.
Ou seja, cabe a constatação de que a situação da mulher no mercado de trabalho se dá de forma a reafirmar a exploração capitalista.Ainda desse ponto de vista, tais mudanças não representaram mudança do papel social das mulheres, especialmente no seu papel na reprodução da força de trabalho.
Um dado que ilustra bem esse quadro é o de que apenas 10% das mães que trabalham têm acesso a creches, e nem mesmo as funcionárias do Ministério da Justiça têm esse direito assegurado. Portanto, além das funções do mercado de trabalho formal, as mulheres ainda ocupam suas funções do mercado de trabalho “socialmente imposto” ou seja, funções no âmbito da reprodução e do trabalho doméstico.
De todo modo, não podemos cair no equívoco de reduzir os impactos dessa mudança (no que diz respeito à renovação cultural), do questionamento frente à posição das mulheres, e do ponto de vista dos comportamentos. Por outro lado, não podemos também superestimá-las.
Apesar da constatação de que essas modificações possibilitam mudanças nos padrões de comportamento, mudança no status social das mulheres – fundamentalmente no aspecto das relações sociais – esse processo, no entanto, se combinará com novas manifestações de redefinição da ideologia machista, além de uma inserção que combina a subordinação proletária ao capital com a subordinação sexista da mulher, possibilitando a superexploração da mão-de-obra feminina. Somos nós, as mulheres brasileiras, as novas antigas mulheres. Que amam, trabalham, e lutam, mas que não deixaram de ser colocadas no lugar da invisibilidade, fruto direto da relação de poder da sociedade capitalista e machista.
O “neo-conservadorismo machista” – ou, “o machismo contra-ataca!” Que nenhum dominador abre mão de sua dominação facilmente, isso nós já estamos cansadas de saber. Principalmente quando tal realidade beneficia tanto a um setor da sociedade, seja pelos altos lucros redundantes da exploração, sejam pelas benesses individuais, sexuais, ou de poder – guardadas suas devidas proporções.
Portanto, a “imagem da mulher moderna” veiculada , que por um lado exalta as mudanças e defende que a inserção produtiva modificou por completo a realidade das mulheres, é tão tola quanto as teorias que preconizam o fim do trabalho ou o fim da história. Do fim de toda forma de exploração e de dominação, depende, sempre, o fim da sociedade de classes, e enquanto houver capitalismo ele recriará as bases necessárias para sua exploração.
Nesse sentido é que podemos afirmar que está em curso uma redefinição muito sofisticada da ideologia machista e da família patriarcal – que deixa de ser tradicional e mononuclear e trata de adaptar-se à nova realidade. A ofensiva mercadológica sobre a imagem das mulheres redefine o papel de sua sexualidade: as mudanças de comportamento na esfera sexual são re-apropriadas de forma utilitarista, e a liberdade sexual passa a ser tratada como mais um objeto “oferecido” por elas. Nesse mesmo contexto, a ampliação do uso de métodos anticoncepcionais – que devem ser enxergados como um aspecto do questionamento da subordinação das mulheres ao exercício da sexualidade na lógica da reprodução – também vem sendo apropriado de forma a desresponsabilizar os homens da questão da reprodução, dos filhos e da prevenção.
As novas mulheres modernas são, para os meios de comunicação, conciliadoras das tarefas exaustivas do dia-a-dia dos seus trabalhos com a de dona-de-casa, mãe e filha. Donas de casa ou “mulheres apaixonadas” em busca de um casamento ideal. São “mulheres apaixonadas” que vivem a vida em função do marido. Essa lógica de submissão e de reapropriação da liberdade sexual tão caramente reivindicada e conquistada pelas mulheres feministas, têm transformado cada vez mais em mercadoria o corpo, a vida e a sexualidade das mulheres.
A forte presença da “ditadura da estética” que preconiza um padrão de saúde incompreensível e inatingível, faz da mulher um objeto que deve estar pautando sua vida nas necessidades dos homens, seja em relação ao seu corpo, seja na busca incessante pela compra de produtos de beleza e higiene. Estar trabalhando, cuidando da casa, estar bela , limpa e disponível.
As mulheres mantêm assim suas tarefas tradicionais, e se somam a essas ainda muitas outras que não fogem do padrão de “ser e estar para o outro”, ou seja, um padrão cruel de submissão e de criação e reprodução dos lucros da milionária indústria da beleza sexista. Essa onda neo-conservadora de machismo mercantil e moderno tem também questionado debates importantes como o aborto e a liberdade das mulheres, além da liberdade de orientação sexual, vista pelos machistas marqueteiros de plantão como ofensa ao padrão familiar tradicional e ao lugar das mulheres na reprodução desse padrão.
É, portanto, uma nova forma de assimilação da opressão, que tem na mídia e na proposição de beleza e da nova mulher uma reapropriação do espaço que tem sido conquistado a duras penas pelas mulheres. Os ideais de “mulher moderna” passam a ser um “tipo ideal”, e, portanto, impalpável, irreal e inexistente na prática. No lugar de mulheres modernas temos as mulheres trabalhadoras e super-exploradas que além de tudo ainda são expostas à patifaria do modelo de “ novas mulheres”. Portanto, para retomarmos nossa questão inicial precisamos entender que as mudanças ocorridas na situação da mulher na sociedade não refletem em mudanças estruturais.
A mudança estrutural do seu papel de reprodução da força de trabalho e de cumprir com todo o trabalho que significa essa reprodução não aconteceu,e nesse aspecto, as mudanças culturais e comportamentais ficam muito limitadas, facilmente redirecionadas para uma “neo-subordinação” da mulher. Por fim, é preciso atentar que o novo machismo está em pleno ataque, e tem alcançado níveis ofensivos de comportamento.
Para combatê-lo é preciso muito debate de caracterização e, mais fundamentalmente, do protagonismo de um novo feminismo, autêntico, combativo, que não entenda as mudanças nos marcos da inserção da mulher no capitalismo e, muito menos, que submeta suas pautas a qualquer “governismo barato”.
Isabel Mansur é cientista social e militante politica
“(...) Os olhos tristes e desesperados de minha amiga dirigem esta pergunta à vida. Todo o sofrimento, todo o horror, toda a dor causada pelo inimigo ainda não vencido- a falta de trabalho- fundem-se nesse olhar: o olhar da mulher que luta contra a velha e decadente ordem da vida... Ela se foi, mas o seu olhar perseguia-me. Este olhar exige uma resposta,estimula a ação, ao trabalho construtivo, mas também à luta.”( Alexandra Kollontai - Irmãs)
Quem são as mulheres? Quem são as mulheres modernas? Que espécie de sociedade as criou e de que forma foram criadas? Quando, como, e por que as mulheres são admitidas no mercado de trabalho? As mulheres modernas são imagem e semelhanças das mulheres de outrora, ou são novas mulheres, incomparáveis? Essas são apenas algumas das perguntas, que nós mulheres que vivemos sob a nova espécie de mulher denominada “mulher moderna” nem sempre conseguimos responder. Debruçar-se sobre elas nos parece fundamental, mas, as dificuldades criadas pela dor da desconstrução do nosso lugar na história – o lugar da invisibilidade - nem sempre torna a tarefa fácil.
Desmitificar todo o símbolo que está por trás da idéia das “mulheres modernas”, e da propaganda de que as mulheres já estão com as garantias de sua inserção além de ser duro, nos revela a nova face da antiga opressão.
Na verdade, indo direto ao ponto, e resumindo todo o texto que trabalharemos daqui para frente, nós, as “mulheres modernas” somos as mulheres modernamente exploradas e oprimidas, ou seja, novas mulheres, encaixadas na antiga fórmula da opressão. As mudanças e alterações visíveis que decorrem da entrada das mulheres no mercado de trabalho não nos brindou, certamente, com uma nova vida.
Somos o reflexo da imagem de todas as mulheres, e a modernidade é exclusivamente dada pela nova fase do sistema capitalista e não em novas relações humanas igualitárias. Nos apropriar desse debate é fundamental para que nossas linhas de ação e construção não fiquem na clandestinidade e no estigma da vitimização.
O nosso debate mais profundo da situação em que vive a maioria das mulheres hoje, e portanto, as mulheres trabalhadoras, deve ser iniciativa constante, para não perdermos de vista que libertação das mulheres depende, sempre, da modificação radical do sistema que vivemos, ou seja, o fim da sociedade capitalista.
Transformação no mundo do trabalho e desigualdade entre gêneros O tipo da mulher estabelecida em determinados momentos históricos, está em relação direta com o grau de desenvolvimento econômico por que atravessa a sociedade. Ao mesmo tempo em que se experimentam modificações nas condições econômicas com a evolução das relações de produção, experimentam-se mudanças nos aspectos comportamentais das mulheres.
A mulher moderna, como tipo (e eu direi, como “tipo ideal”) não poderia surgir a não ser com o aumento quantitativo da força de trabalho feminino assalariado, e da inserção em massa das mulheres no mercado de trabalho. Mas, apesar das reconhecidas transformações por que tem passado a situação das mulheres em relação a sua participação no mercado de trabalho e nas conquistas de direitos civis e políticos, persiste, evidente e visivelmente, uma diferença gritante na inserção produtiva entre os gêneros.
Em primeiro lugar, não podemos deixar de lado que, a recente inserção feminina no mercado de trabalho brasileiro tem acontecido num quadro econômico hostil, em que os interesses do capital prevalecem cada vez mais sobre os do trabalho, quadro em que assistimos em todo o mundo a altas taxas de desemprego, precarização da condição do trabalho e da vida humana, flexibilização e terceirização, queda de rendimentos e ataques às conquistas de direitos trabalhistas.
Portanto, a inserção das mulheres se dá em um contexto mais que adverso. Ainda se soma a esse quadro uma cultura econômica centrada no poder masculino, reflexo da construção social da divisão sexual do trabalho. Em condições tão adversas, encontraremos evidentemente extrema desigualdade na inserção produtiva entre os diferentes gêneros, assim como a fundamento fundamental dessa inserção é, justamente, a possibilidade da super-exploração.
Um debate mais de fundo, introduzido por Helena Hirata, constata que a inserção das mulheres no mundo do trabalho acontece sob a lógica do trabalho produtivo enquanto não se modificam suas tarefas no espaço reprodutivo. Portanto, para ela, tal realidade não é suficiente para construir um novo paradigma de divisão sexual do trabalho- mulheres responsáveis pelo trabalho reprodutivo e homens pelos produtivos para que as tarefas reprodutivas não sejam de responsabilidade do capital, e que, portanto, esse lucre cada vez mais-, base fundante da exploração das mulheres e fator central do poder que os homens exercem sobre elas. Ou seja, nesse sentido, a inserção das mulheres no mercado de trabalho se dá como novas cenas de antigas personagens, ou seja, mais do mesmo. Mais exploração e maior desigualdade.
Além das desigualdades que analisaremos nas estatísticas em relação à diferenciação entre os gêneros, constataremos uma desigualdade ainda mais alarmante nos dados sobre mulheres negras. Isso além, é claro, das diferenças entre as regiões do país, debate sobre o qual não nos debruçaremos. Os dados do relatório mais recente do DIEESE (2005) sobre inserção feminina no mercado de trabalho, demonstram que a participação das mulheres significa entre 43,2% (Recife) e 58,6% (DF) do total da força de trabalho nas regiões metropolitanas. Mas a maior presença no mercado não se reverte, por si só, em sucesso na inserção, e a despeito da crescente participação as mulheres ainda apresentam taxas de desemprego sistematicamente superiores às dos homens, variando entre 53 e 56% do total de desempregados.
Além disso, as taxas de desemprego feminino apresentaram variação maior de elevação se comparadas às masculinas entre os anos de 1998 e 2004. Nas ocupações de inserção vulnerável a sujeição das mulheres é maior que a dos homens. O índice aqui apresentado é de que 40% de todas as trabalhadoras do Brasil se encontram em situação precária de emprego.
Dentre as ocupações, mais de 15% das trabalhadoras estão em empregos domésticos, e significam um total de 50 a 60% dos empregados no setor de serviços. Embora ocupem 43,8% dos cargos públicos federais, o índice cai para 13% nos cargos comissionados mais importantes. Já o relatório apresentado pelo governo brasileiro em 2005, demonstra que os rendimentos das mulheres significam 60% do valor dos salários dos homens. Se compararmos a relação do salário com o das mulheres afro-descendentes, a situação é ainda mais dramática.
O relatório apresentado pelo Brasil ao Comitê CEDAW revela que “os rendimentos das mulheres não brancas chegam a ser 70% inferiores aos rendimentos dos homens brancos e 53% inferiores aos rendimentos das mulheres brancas. São também 40% inferiores aos rendimentos dos homens não-brancos.” Essa realidade tem levado muitos teóricos a afirmar que está em curso um processo de “feminização da pobreza”, pela real desigualdade de salários entre homens e mulheres, e pelo crescimento do número de famílias que são “chefiadas” por mulheres – que chegam hoje ao total de 28,8% das famílias.
Ou seja, cabe a constatação de que a situação da mulher no mercado de trabalho se dá de forma a reafirmar a exploração capitalista.Ainda desse ponto de vista, tais mudanças não representaram mudança do papel social das mulheres, especialmente no seu papel na reprodução da força de trabalho.
Um dado que ilustra bem esse quadro é o de que apenas 10% das mães que trabalham têm acesso a creches, e nem mesmo as funcionárias do Ministério da Justiça têm esse direito assegurado. Portanto, além das funções do mercado de trabalho formal, as mulheres ainda ocupam suas funções do mercado de trabalho “socialmente imposto” ou seja, funções no âmbito da reprodução e do trabalho doméstico.
De todo modo, não podemos cair no equívoco de reduzir os impactos dessa mudança (no que diz respeito à renovação cultural), do questionamento frente à posição das mulheres, e do ponto de vista dos comportamentos. Por outro lado, não podemos também superestimá-las.
Apesar da constatação de que essas modificações possibilitam mudanças nos padrões de comportamento, mudança no status social das mulheres – fundamentalmente no aspecto das relações sociais – esse processo, no entanto, se combinará com novas manifestações de redefinição da ideologia machista, além de uma inserção que combina a subordinação proletária ao capital com a subordinação sexista da mulher, possibilitando a superexploração da mão-de-obra feminina. Somos nós, as mulheres brasileiras, as novas antigas mulheres. Que amam, trabalham, e lutam, mas que não deixaram de ser colocadas no lugar da invisibilidade, fruto direto da relação de poder da sociedade capitalista e machista.
O “neo-conservadorismo machista” – ou, “o machismo contra-ataca!” Que nenhum dominador abre mão de sua dominação facilmente, isso nós já estamos cansadas de saber. Principalmente quando tal realidade beneficia tanto a um setor da sociedade, seja pelos altos lucros redundantes da exploração, sejam pelas benesses individuais, sexuais, ou de poder – guardadas suas devidas proporções.
Portanto, a “imagem da mulher moderna” veiculada , que por um lado exalta as mudanças e defende que a inserção produtiva modificou por completo a realidade das mulheres, é tão tola quanto as teorias que preconizam o fim do trabalho ou o fim da história. Do fim de toda forma de exploração e de dominação, depende, sempre, o fim da sociedade de classes, e enquanto houver capitalismo ele recriará as bases necessárias para sua exploração.
Nesse sentido é que podemos afirmar que está em curso uma redefinição muito sofisticada da ideologia machista e da família patriarcal – que deixa de ser tradicional e mononuclear e trata de adaptar-se à nova realidade. A ofensiva mercadológica sobre a imagem das mulheres redefine o papel de sua sexualidade: as mudanças de comportamento na esfera sexual são re-apropriadas de forma utilitarista, e a liberdade sexual passa a ser tratada como mais um objeto “oferecido” por elas. Nesse mesmo contexto, a ampliação do uso de métodos anticoncepcionais – que devem ser enxergados como um aspecto do questionamento da subordinação das mulheres ao exercício da sexualidade na lógica da reprodução – também vem sendo apropriado de forma a desresponsabilizar os homens da questão da reprodução, dos filhos e da prevenção.
As novas mulheres modernas são, para os meios de comunicação, conciliadoras das tarefas exaustivas do dia-a-dia dos seus trabalhos com a de dona-de-casa, mãe e filha. Donas de casa ou “mulheres apaixonadas” em busca de um casamento ideal. São “mulheres apaixonadas” que vivem a vida em função do marido. Essa lógica de submissão e de reapropriação da liberdade sexual tão caramente reivindicada e conquistada pelas mulheres feministas, têm transformado cada vez mais em mercadoria o corpo, a vida e a sexualidade das mulheres.
A forte presença da “ditadura da estética” que preconiza um padrão de saúde incompreensível e inatingível, faz da mulher um objeto que deve estar pautando sua vida nas necessidades dos homens, seja em relação ao seu corpo, seja na busca incessante pela compra de produtos de beleza e higiene. Estar trabalhando, cuidando da casa, estar bela , limpa e disponível.
As mulheres mantêm assim suas tarefas tradicionais, e se somam a essas ainda muitas outras que não fogem do padrão de “ser e estar para o outro”, ou seja, um padrão cruel de submissão e de criação e reprodução dos lucros da milionária indústria da beleza sexista. Essa onda neo-conservadora de machismo mercantil e moderno tem também questionado debates importantes como o aborto e a liberdade das mulheres, além da liberdade de orientação sexual, vista pelos machistas marqueteiros de plantão como ofensa ao padrão familiar tradicional e ao lugar das mulheres na reprodução desse padrão.
É, portanto, uma nova forma de assimilação da opressão, que tem na mídia e na proposição de beleza e da nova mulher uma reapropriação do espaço que tem sido conquistado a duras penas pelas mulheres. Os ideais de “mulher moderna” passam a ser um “tipo ideal”, e, portanto, impalpável, irreal e inexistente na prática. No lugar de mulheres modernas temos as mulheres trabalhadoras e super-exploradas que além de tudo ainda são expostas à patifaria do modelo de “ novas mulheres”. Portanto, para retomarmos nossa questão inicial precisamos entender que as mudanças ocorridas na situação da mulher na sociedade não refletem em mudanças estruturais.
A mudança estrutural do seu papel de reprodução da força de trabalho e de cumprir com todo o trabalho que significa essa reprodução não aconteceu,e nesse aspecto, as mudanças culturais e comportamentais ficam muito limitadas, facilmente redirecionadas para uma “neo-subordinação” da mulher. Por fim, é preciso atentar que o novo machismo está em pleno ataque, e tem alcançado níveis ofensivos de comportamento.
Para combatê-lo é preciso muito debate de caracterização e, mais fundamentalmente, do protagonismo de um novo feminismo, autêntico, combativo, que não entenda as mudanças nos marcos da inserção da mulher no capitalismo e, muito menos, que submeta suas pautas a qualquer “governismo barato”.
Isabel Mansur é cientista social e militante politica

1 comentários:
segunda-feira, dezembro 27, 2010 3:18:00 PM
gostaria que a autora fizesse contato.Meu email:
tuxedosamtk@gmail.com
grata.
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