Educação, Mercado e Crise

por Gilson Amaro*


Ao longo da década de 1990 e início deste século vem sendo implementado um processo de intensa mercantilização da educação superior brasileira, comercializada como qualquer utensílio ao sabor dos gostos e bolsos, com clara perda de qualidade em relação à universidade pública. Esse processo se fez concomitantemente ao de extremo sucateamento do setor publico, num movimento que possui suas bases políticas, econômicas e filosóficas no que se convencionou chamar neoliberalismo, sendo um importante componente de redesenho civilizatório, onde ocorre a transferência de competências do Estado para setores privados em todas as esferas da vida social.


As armas culturais para implantação deste projeto, que segundo o sociólogo Francisco de Oliveira “tem como verdadeira face o totalitarismo (01)”, foram, a imposição do pensamento único, a despolitização e o desprezo do senso crítico formando as bases para a criação de um falso consenso: a ordem capitalista é o único caminho para a humanidade. Restando apenas ao indivíduo se lançar numa competição desenfreada contra os outros, devorando os próximos *,1na luta por uma sombra ao mercado, glorificado como um Deus punitivo, vingativo e emocionalmente instável. Longe de ser devaneio, afirmar que esta cultura se tornou hegemônica na educação superior é a mera constatação de um fato, expresso na tendência pos-modernizante das IES brasileiras.


A individualização da culpa e do sucesso é a explicação para todos sub-produtos da complexa ordem social e política, facilmente vislumbrada nos atrativos comerciais de cursos e especializações que lhe “destacarão no mercado e lhe darão um emprego”, como se todos indivíduos pudessem, com esse investimento, atingir o objetivo no estreito mercado de trabalho. O mito do estudo como escudo protetor para o desemprego se fundamenta numa visão ingênua, ou mal intencionada da economia capitalista que ignora o impacto do desemprego estrutural. Marcio Pochmann avalia esta questão em seu artigo “Anomalia do desemprego intelectual” (02).


Durante esse período assistimos a ridicularização de toda e qualquer discussão política que apontasse alterações estruturantes como utópica, irrealizável, ou como o que virou o pior dos adjetivos, ideológica. Ideologia, um conceito chave para a compreensão da realidade social, deturpado pelo pensamento único, foi transformado praticamente numa patologia mental. Talvez isto tenha ocorrido por seu caráter revelador, afinal ideologia trata-se do “conjunto de concepções de mundo ligada às classes sociais (03)”. Assim entendido, o neoliberalismo é a utopia do setor financeiro onde a sociedade de mercadorias é a forma final da historia humana, sendo na realidade uma perversa ideologia de dominação social a qual estamos submetidos.


Neste período para manter os privilégios das elites que parasitam o Brasil se intensificou o sucateamento do estado brasileiro, acabando por produzir uma das maiores crises educacionais em nosso pais. Não caíamos em ilusão, mesmo as mais intensas e apelativas manifestações dos diversos setores da sociedade civil organizada em torno da questão raramente superou, os desgastados jargões - educação em primeiro lugar, educação e investimento não é gasto, só a educação pode salvar o Brasil. Tais iniciativas e movimentos sempre frustraram, ora pela ingenuidade, ora por serem simples analgésicos das elites, ou pela simples constatação de que neles já esta incorporada a idéia de que a educação realmente é uma mercadoria.


Com raras exceções foram feitos os básicos questionamentos: Vamos educar os jovens para disputar vorazmente as precárias, temporárias e poucas vagas no sacrossanto mercado e assim manter os privilégios das elites parasitas, que raramente pagam um salário que livra o trabalhador da subsistência? Ou educaremos criticamente, partindo da constatação da natureza desigual e exploradora de nosso sistema ao qual não devemos nos vender para se inserir, mas sim lutar para superar, construindo um novo projeto político?


O setor privado do ensino superior brasileiro, empresarial ou não, mais do que qualquer outro definiu seu lado ao longo do redesenho neoliberal do mundo, vestindo sua camisa, ou melhor, sendo sua criação. Como fiel e intransigente escudeiro iniciou uma cruzada em defesa dos princípios do mercado, da competição, formatando a juventude em moldes tecnocráticos, despolitizados, apontando como objetivo único da formação superior um emprego (04), com esta lógica não [1]precisamos ir longe para explicar a péssima qualidade de ensino destas instituições. Opressoras de professores e estudantes, baixos salários, altas mensalidades e perseguições políticas são marcas indeléveis deste setor, heranças coloniais e novos papeis autoritários se misturam aqui.


A explosão da atual crise econômica internacional, conseqüência lógica do controle da tão aclamada mão invisível do mercado sobre toda sociedade, que vendeu as ilusões de emprego, bem estar, segurança e liberdade por décadas com uma retórica digna de conto de fadas. Esta sendo combatida agora com uma verdadeira heresia dentro dos princípios neoliberais. Os países que estão no epicentro da crise ou estão recebendo mais intensamente seus impactos estão partindo para a reorganização da economia por meio de intervenção direta do Estado.


Isso não é novidade, pois, na essência o neoliberalismo sempre foi um projeto de reorganização da exploração de classes, para restauração do poder das elites mundiais. Assim, quando necessário sem sentimento de culpa algum, viola seus falsos princípios para manter ou ampliar seu poder. Interessante e irônica questão para nós é que se o mercado explodiu o setor financeiro, o que dizer da educação que tal como a economia mundial encontra-se em crise, fruto desta mesma mão.


A lógica mercantilista sepulta dia a dia a educação superior no Brasil, onde diversas instituições intituladas não empresariais, apenas figuram como entes esquizofrênicos pregando a solidariedade, inclusão, direitos, qualidade de ensino, e praticando o expurgo de inadimplentes, reduções de salário, criação de cursos a distancia e de curta duração, fazendo de tudo para vender o seu produto. Afinal é isso que um mercado faz, ele não educa, ele vende.


Florestan Fernandes já em 1966 resumiu nossa situação “poucos países, no mundo moderno possuem problemas educacionais tão graves quanto o Brasil. Como herança do antigo sistema escravocrata e senhorial recebeu uma situação dependente inalterável na economia mundial, instituições políticas fundadas na dominação patrimonialista (05)”. A superação deste quadro na educação brasileira como um todo, não é tarefa setorial, que se faça isoladamente, tampouco é um problema estritamente educacional, na verdade é uma questão política e econômica relacionada com o papel que o Brasil cumpre na produção mundial e também não é tarefa de todos. E sim da maioria subjugada socialmente há quinhentos anos, que salvo as alterações tecnológicas e mudanças superficiais fruto de uma democracia de fachada, cumpre o mesmo papel histórico de submissão e sub-condição.


A atual crise econômica não é o sepultamento do capitalismo, entretanto já nos permite ter mais materialidade no questionamento de seus pressupostos, principalmente daqueles defendidos pelos fundamentalistas do mercado, e recoloca a urgência da construção de um novo sistema de organização social, que supere as contradições do atual, relembrando as palavras de Florestan, “isto é tarefa dos debaixo, dos vencidos da história”.


[2]


(*) Gilson Amaro é graduando em Filosofia e Presidente do Diretório Central dos Estudantes da Universidade de Sorocaba.

01- Oliveira, Francisco. Privatização do público, destituição da fala e anulação da política: o totalitarismo neoliberal, in Os Sentidos da Democracia: políticas de Dissenso e Hegemonia Global – organizadores; Francisco de oliveira e Maria Célia Poli. 1999, Ed Vozes RJ 1º Ed.

02- “De um lado, constata-se uma importante elevação nos anos de estudos por parte da população em praticamente todas as faixas etárias. No ano de 2004, a população brasileira tinha 6,6 anos de estudos em média, contra um índice de somente 5,1 anos em 1993. Ou seja, um aumento de quase 30% no conjunto da população brasileira. Em contrapartida, 60,2% do total dos desempregados (8,3 milhões de pessoas) tinham, em 2004, o ensino básico completo (ou até oito anos de estudo); em 1995 eram apenas 37,7% (4,5 milhões).
No caso do número de desempregados de nível universitário, houve multiplicação por quase três vezes no mesmo período de tempo (passando, entre 1995 e 2004, de 98 mil a 247 mil desempregados). Em 2004, havia 1,7 desempregado analfabeto para cada desempregado com 15 anos ou mais de estudos, enquanto em 1992 eram 3,6 desempregados analfabetos para cada desempregado universitário (...) Portanto, confirma-se que o desemprego estrutural tende a convergir para os trabalhadores com maior escolaridade “. (2008 Revista fórum on line)”.

03- Löwy, Michael. As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Münchhausen: Marxismo e Positivismo na Sociologia do Conhecimento, São Paulo: Busca Vida, 1987 5º Ed. P. 10.

04- Basta observarmos as publicidades estas instituições, bom exemplo é a Universidade de Sorocaba, com slogans como: “para não ser devorado pelo mercado”, “encontre seu lugar ao Sol”. (Nota do autor)

05- Fernandes, Florestan, Ensaios de Sociologia geral e aplicada, Liv. Pioneira Ed., São Paulo 1960, PP. 192-219.

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