TRABALHO

Brasil, o país do subemprego


A informalidade, empregos de baixa remuneração e a solução individual prevalecem como a saída ao problema coletivo do desemprego

A informalidade, empregos de baixa remuneração e a solução individual prevalecem como a saída ao problema coletivo do desemprego
Juliano Domingues
de São Paulo (SP)


Maria Célia Ferreira, 51 anos. Trabalhava como atendente nas Casas Bahia, mas em 2003 ficou doente e dependente do auxilío-doença do INSS. Em setembro de 2006 acabou o benefício e desde então está desempregada. Conseguiu uma carta de indicação para disputar uma vaga em telemarketing, mas nunca trabalhou com isso. Adriana Carla Lias, 31 anos. Veio de Cuiabá, onde trabalhou por seis anos como vendedora. Está em São Paulo há três meses e procura uma vaga para trabalhar no mesmo ramo.

Edson Rodrigues Pereira, 39 anos, desempregado há seis meses, tempo em que viveu de bicos. Antes disso trabalhou como motorista e como vendedor de passagens na companhia de ônibus Expresso Brasil.

Mônica Alves da Mota, 17 anos. Trabalhou por nove meses como panfleteira, recebendo por dia trabalhado. Trabalhou seis meses num restaurante onde ganhava R$ 350 por mês. Está desempregada há um mês, já distribuiu currículos. Está disposta a qualquer vaga que aparecer.

Os exemplos são quase infinitos, e retratam o fenômeno característico do Brasil nos últimos 20 anos: a precarização de mercado de trabalho pela expansão de vagas que oferecem baixos salários e exigem baixa escolaridade.

Dados do Centro de Apoio ao Trabalho (CAT), órgão destinado à reinserção de trabalhadores desempregados, denunciam tal situação. O órgão, localizado em São Paulo, atende a cerca de 2 mil pessoas por dia. Entre junho de 2005 a fevereiro de 2007, apenas 13,8% de 370.377 trabalhadores conseguiram emprego. Desses, 80% estão trabalhando no setor de serviços, desempenhando atividades como: operador de telemarketing, repositor de supermercado, promotor de vendas, operador de caixa, oficial de serviços gerais, balconista, auxiliar de limpeza, vigilante, porteiro, auxiliar de almoxarifado.

O quadro relativo a São Paulo pode ser extrapolado para o Brasil. Dados do IBGE de 2000 mostram que 70% dos trabalhadores urbanos do país realizam atividades consideradas precárias do ponto de vista de investimento tecnológico e humano. Para Marcio Pochmann, economista e professor da Unicamp, esse tipo de ocupação é resultado do próprio modelo econômico; trata-se da expansão de segmentos de baixo valor agregado e reduzido investimento tecnológico. “Hoje, o tipo de emprego possível é o de dois salários mínimos, 94% dos empregos no país hoje pagam até dois salários mínimos”, avalia.

Segundo ele, o Brasil está cada vez mais polarizado entre ricos e pobres, com esvaziamento da classe média. “Hoje, você tem uma sociedade menos complexa com enorme quantidade de trabalhadores que pode se dizer que não pertencem a nenhuma classe, pois estão submetidos a condições de trabalho completamente individuais. São ‘despaçados’”, acrescenta.


HISTÓRICO

Pochmann lançou recentemente o livro Trabalhadores Urbanos: Ocupação e Queda na Renda (Cortez Editora). No estudo, o economista avalia que, desde o início da década de 80, prevalece no Brasil uma política de manutenção da fraqueza da atividade industrial, motor da economia, em favor do enriquecimento meramente financeiro. Dito de forma mais direta: dinheiro gerando mais dinheiro estéril sem qualquer intermediação da esfera produtiva ou comercial.

Para o pesquisador, as elites isolam-se num individualismo cada vez mais exacerbado, não compartilhandodores os destinos do país, e dão um rumo meramente líquido às suas aplicações. A desestruturação do mercado se agrava. Não há motivo para que a demanda efetiva de postos que exijam maior capacidade intelectual se expandam. Os sindicatos defensores de dignas condições de trabalho se desestruturaram. O mercado de trabalho comporta-se de acordo com as decisões capitalistas e as oportunidades de trabalho também.

SINDICATOS

A situação do emprego na indústria mostra outras características do mesmo processo. A precarização dá-se principalmente pela perda de força dos sindicatos, que antes eram de luta e agora são de parceria, e pelas conseqüentes perdas de direito do trabalhador.

De acordo com Marcio Pochmann, a crescente fragmentação dos sindicatos nas duas últimas décadas ocorreu ao mesmo tempo da redução dos sindicalizados. O universo sindical tornou-se mais heterogêneo e o processo de negociação política cada vez mais específico, sem que isso significasse ampliação dos direitos dodor. “Parece um processo de ‘corporatização’ do sindicalismo. Em 2006, tivemos menos de 500 greves registradas, isso é cerca de 10% a mais do número de greves que tínhamos há 18 anos, por exemplo. O que não significa também dizer que o fato de ter tido menos greves tenha tornado as relações de trabalho mais favoráveis aos empregados, tenha melhorado a remuneração e assim por diante”, afirma.

O professor de sociologia do trabalho da Unicamp, Ricardo Antunes, afirma que hoje os capitais impõem e fazem com que os trabalhadores, despossuídos de uma defesa à altura, priorizem as soluções individuais. “As reivindicações mudam. Antes, a centralidade era o salário, mas não havia desemprego e sempre houve a luta por melhores condições de trabalho, assim como há hoje. No entanto, agora a luta precedente é por emprego. O risco do desemprego bate em todas as portas de fábricas e empresas”, avalia.

Luís Batista, 43 anos, diz que já trabalhou em mais de 12 empresas metalúrgicas, mas que hoje faz bico como funileiro. “Mudou muito, lembro que em 1984, você tinha uma oferta muito maior de vagas, podia trabalhar uma semana num emprego e, se não gostasse, largava e ia pra outro. As empresas também tinham melhores condições, e hoje elas te oferecem o mínimo, plano de saúde e olhe lá. O sindicato naquela época era mais atuante. Hoje, não vão mais até as empresas e mesmo os funcionários não dão atenção porque têm medo de perder o emprego”, relata.

“Quando há mutações no mercado de trabalho, isso afeta as organizações que representam os trabalhadores. Antes da década de 70, cerca de 70% dos trabalhadores tinham carteira assinada e hoje cerca de 50% deles estão na informalidade, ou seja, a base de sustentação dos sindicatos sofreu forte abalo, pois hoje a classe trabalhadora encontra-se fragmentada”, explica Antunes.


fonte: Brasil de Fato

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