LIBERALIZAÇÃO COMERCIAL


Como fabricar uma crise global


Como foi que os mexicanos, que vivem na terra onde o milho foi domesticado, chegaram a depender do grão produzido nos EUA? Como foi que as Filipinas, que exportavam arroz, passaram a ser o maior importador mundial deste produto? Como no México, os agricultores filipinos perderam o apoio do Estado e descobriram os "encantos" da liberalização comercial. A análise é de Walden Bello.


Quando centenas de milhares de pessoas se manifestaram no México, no ano passado, contra o aumento no preço da tortilla, muitos analistas culparam os biocombustíveis. Devido aos subsídios do governo norte-americano, os agricultores desse país estavam destinando mais hectares ao milho para etanol do que para alimentos, fazendo com que os preços disparassem. Esse desvio do uso do milho foi, sem dúvida, uma das causas do aumento dos preços, embora provavelmente a especulação dos atravessadores, com a demanda por biocombustíveis, teve uma influência maior. Contudo, muitos deixaram passar uma pergunta interessante: como foi que os mexicanos, que vivem na terra onde o milho foi domesticado, chegaram a depender do grão norte-americano?

A erosão da agricultura mexicana

Não é possível entender a crise alimentar mexicana sem considerar que nos anos anteriores à "crise da tortilla" a pátria do milho foi transformada em uma economia importadora desse grão pelas políticas de “livre mercado” promovidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial (BM) e por Washington. O processo começou com a crise da dívida, no início da década de 1980. O México, um dos maiores devedores do mundo em vias de desenvolvimento, foi obrigado a implorar dinheiro do BM e do FMI para pagar o serviço de sua dívida com bancos comerciais internacionais. O preço do resgate foi aquilo que um membro do conselho executivo do BM descreveu como um “intervencionismo sem precedentes”, projetado para eliminar tarifas, regulamentações estatais e instituições governamentais de apoio, que a doutrina neoliberal identificava como barreiras para a eficiência econômica.

O pagamento de juros aumentou de 19% do gasto federal total, em 1982, para 57%, em 1988, enquanto o gasto de capital desmoronou, caindo de 19,3% para 4,4%. A redução do gasto governamental significou acabar com o crédito estatal, com os insumos agrícolas subsidiados pelo governo, com os apoios aos preços, com os conselhos estatais de comercialização e com os serviços de extensão.

Este golpe contra a agricultura camponesa foi seguido por outro ainda maior, em 1994, quando entrou em vigor o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (TLCAN). Apesar de que esse tratado considerava uma prorrogação de 15 anos para a proteção de produtos agrícolas, entre eles o milho, em pouco tempo começou chegar milho norte-americano altamente subsidiado, fazendo com que os preços caíssem pela metade e afundando o setor do milho em uma crise crônica. Em grande parte por causa desse acordo, o México acabou consolidando-se como importador de alimentos.

Com o fechamento da entidade governamental encarregada da comercialização de milho, a distribuição das importações desse grão vindas dos Estados Unidos, assim como a do milho nacional, foi monopolizada por umas poucas empresas transnacionais de comércio, como a Cargill. Isso deu-lhes um tal poder para especular com as tendências do mercado que podem manipular e magnificar, muitas vezes, os movimentos da demanda por biocombustíveis. Ao mesmo tempo, o controle monopólico do comércio doméstico garantiu que um aumento nos preços internacionais do milho não se traduza em preços significativamente mais altos para os pequenos produtores.

Cada vez é mais difícil para os produtores mexicanos de milho furtar-se do destino de muitos outros pequenos produtores em setores como arroz, carne de gado, frango e suíno, os quais faliram devido às vantagens concedidas pelo TLCAN aos produtos subsidiados norte-americanos. Segundo um relatório do Fundo Carnegie, de 2003, as importações agrícolas dos EUA deixaram sem trabalho 1,3 milhão de camponeses, muitos dos quais migraram para o país do norte.

As perspectivas não são boas, porque o governo mexicano continua nas mãos de neoliberais que desmantelam sistematicamente o sistema de apoio ao campo.

Fabricação da crise do arroz nas Filipinas

Que a crise global de alimentos tem sua origem na restruturação da agricultura feita pelo livre mercado fica ainda mais claro no caso do arroz. Diferentemente do milho, menos de 10% da produção mundial de arroz é comercializada. Além disso, no caso do arroz não houve desvio do consumo para os biocombustíveis. Contudo, apenas neste ano os preços já triplicaram, passando de 380 dólares por tonelada, em janeiro, para mais de mil dólares, em abril. Não há dúvida de que uma boa parte dessa inflação é conseqüência da especulação dos cartéis atacadistas em uma época em que a oferta é escassa. Contudo, o maior mistério é saber por que vários países consumidores de arroz que antes eram auto-suficientes tornaram-se severamente dependentes das importações.

As Filipinas constituem um triste exemplo de como a restruturação econômica neoliberal transforma um país exportador em importador de alimentos. Esse país é o maior importador mundial de arroz. O esforço de Manila para garantir o abastecimento a qualquer preço tem se tornado manchete de capa e as fotografias de soldados que dão proteção à distribuição desse cereal nas comunidades pobres passaram a ser emblemáticas da crise global.

Os aspectos gerais da história das Filipinas são semelhantes aos do México. O ditador Ferdinando Marcos foi culpado de muitos crimes e de erros de gestão, entre os quais não ter promovido a reforma agrária, mas não pode ser acusado de privar o setor agrícola de verbas governamentais. Para amenizar o descontentamento dos camponeses, o regime entregou fertilizantes e sementes subsidiados, promoveu mecanismos de crédito e construiu infra-estrutura rural. Durante os 14 anos da sua ditadura, em apenas um, 1973, foi necessário importar arroz, devido aos extensos prejuízos causados por furacões. Quando Marcos fugiu do país, em 1986, havia 900 mil toneladas métricas de arroz estocadas nos armazéns do governo.

Paradoxalmente, os anos seguintes, com um governo democrático, viram encolher a capacidade de investimento governamental. O BM e o FMI, atuando em representação de credores internacionais, pressionaram o governo de Corazón Aquino para que desse prioridade ao pagamento da dívida externa, que chegava a 26 bilhões de dólares. Aquino concordou, apesar de ter sido advertida pelos economistas de seu país de que seria “inútil procurar por um plano de recuperação que seja consistente com o pagamento da dívida estabelecido pelos nossos credores”.

Entre 1986 e 1993, entre 8 e 10% do PIB saiu das Filipinas cada ano para pagar o serviço da dívida. A proporção dos gastos governamentais com o pagamento de juros, aumentou de 7%, em 1980, para 28%, em 1994; os gastos de capital caíram de 26% para 16%. Em resumo, o serviço da dívida tornou-se prioridade do orçamento nacional.


O gasto com agricultura caiu para menos da metade. O BM e seus acólitos locais não estavam preocupados, porque um dos propósitos de estar apertando o cinto era deixar que o setor privado fizesse investimentos no campo. Mas a capacidade agrícola ruiu rapidamente, o regadio cessou e por volta do fim da década de 1990 apenas 19% da rede viária do país estava pavimentada, contra 82% na Tailândia e 75% na Malásia. As colheitas eram, em geral, anêmicas; o rendimento médio do arroz era de 2,8 toneladas por hectare, muito abaixo do conseguido na China, Vietnã e Tailândia, onde os governos promoviam ativamente a produção rural. A reforma agrária definhou na era posterior a Marcos, privada de recursos para serviços de apoio, que tinham sido a chave para as bem-sucedidas reformas de Taiwan e da Coréia do Sul.

Como no México, os camponeses filipinos enfrentaram a retirada em grande escala do Estado como fonte de apoio. E o corte em programas agrícolas foi seguido pela liberalização comercial; a entrada das Filipinas na Organização Mundial do Comércio (OMC) teve o mesmo efeito que o TLCAN para o México. Ser membro da OMC requeria eliminar quotas de importações agrícolas, exceto para o arroz, e permitir que uma certa quantidade de cada produto entrasse com taxas reduzidas. Apesar de que foi permitido ao país manter uma quota nas importações de arroz, teve que admitir uma quantidade equivalente a entre um e 4% do consumo doméstico nos 10 anos seguintes. De fato, como conseqüência da queda na produção derivada da falta de apoio oficial, o governo importou muito mais do que isso para compensar uma possível escassez. Essas importações, que aumentaram de 263 mil toneladas, em 1995 para 2,1 milhões em 1998, fizeram cair o preço do cereal, desalentando os produtores, e manteve a produção em um nível muito inferior ao dos principais provedores do país, Tailândia e Vietnã.

As conseqüências da entrada das Filipinas na OMC varreram o resto da agricultura como um furacão. Diante da invasão de importações baratas de milho, os camponeses reduziram a terra dedicada a essa cultura de 3,1 milhões de hectares, em 1993, para 2,5 milhões no ano 2000. A importação massiva de cortes de frango praticamente acabou com essa indústria e foi também o aumento de importações que afetou a produção de aves, suínos e vegetais.

Os economistas do governo prometeram que as perdas em milho e outras culturas tradicionais seriam mais do que compensadas pela nova indústria exportadora de cultivos “de alto valor agregado”, como flores, aspargos e brócolis. Pouco de tudo isso aconteceu. O emprego agrícola caiu de 11,2 milhões, em 1994, para 10,8 milhões, em 2001.

O duplo golpe do ajuste imposto pelo FMI e a liberalização comercial imposta pela OMC fez com que uma economia agrícola em grande medida auto-suficiente passasse a ser dependente das importações e marginalizou constantemente os agricultores. Tratou-se de um processo cujo sofrimento foi descrito por um negociador do governo filipino durante uma sessão da OMC em Genebra: “Nossos pequenos produtores agrícolas são massacrados pela brutal injustiça do entorno do comércio internacional”.

A grande transformação

A experiência do México e das Filipinas repetiu-se em um país após outro, todos sujeitos aos manejos do FMI e da OMC. Um estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 14 países descobriu que os níveis de importações agrícolas em 1995-98 excederam os de 1990-94. Não foi surpresa, visto que um dos principais objetivos do acordo agrícola da OMC era abrir mercados em países em vias de desenvolvimento, para que eles absorvessem a produção excedente do norte.

Os apóstolos do livre mercado e os defensores do dumping parecem estar em extremos opostos do espectro, mas as políticas que defendem produzem o mesmo resultado: uma agricultura capitalista industrial globalizada. Os países em desenvolvimento entram em um sistema em que a produção de carne e grãos para exportação está dominada por grandes fazendas industrializadas, como as administradas pela transnacional tailandesa CP, nas quais a tecnologia é melhorada continuamente por avanços em engenharia genética de companhias como a Monsanto. E a eliminação de barreiras tarifárias e não tarifárias facilita que surja um supermercado agrícola global de consumidores de elite e de classe média, atendidos por corporações de comércio de grãos, como Cargill e Archer Daniels Midland, e por varejistas transnacionais de alimentos, como a britânica Tesco e a francesa Carrefour.

Não se trata somente da perda progressiva da auto-suficiência alimentar nacional ou da segurança alimentar, mas daquilo que a africanista Deborah Bryceson, de Oxford, denomina “descamponesização”, ou seja, da supressão de um modo de produção para fazer do campo um lugar mais apropriado para a acumulação intensiva de capital. Esta transformação é traumática para centenas de milhões de pessoas, porque a produção camponesa não é somente uma atividade econômica: é um modo de vida milenar, uma cultura, o que é uma das razões de que na Índia os camponeses deslocados ou marginalizados tenham optado pelo suicídio. Calcula-se que uns 15 mil camponeses indianos acabaram com suas vidas.

A queda de preços, resultado da liberalização comercial, e a perda do controle sobre as sementes, agora em mãos das empresas de biotecnologia, fazem parte de um problema integral, assinala Vandana Shiva, ativista pela justiça global: “Na globalização, o camponês ou camponesa perde sua identidade social, cultural e econômica de produtor. Agora, um camponês é ‘consumidor’ das sementes e químicos caros vendidos pelas poderosas corporações transnacionais através de poderosos latifundiários e agiotas locais”.

* Versão reduzida do artigo que será publicado na edição do The Nation (Nova York) no dia 2 de junho. Reproduzido com autorização do autor.
** Walden Bello é analista e ex-diretor executivo do instituto de pesquisa e ativismo Enfoque no Sul Global, com sede em Bangkok.

Tradução:
Naila Freitas / Verso Tradutores

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Sob nebuloso discurso desenvolvimentista, hidrelétricas atropelam povos nativos


Escrito por Rodolfo Salm 21-Mai-2008


Começou, na última segunda-feira, com a presença maciça da imprensa, e grande excitação, mais uma manifestação dos povos indígenas do Xingu contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte. Batizada de Xingu Vivo para Sempre, as atividades estão programadas para acontecer até o dia 23 de maio, no ginásio poliesportivo de Altamira, no centro-norte do Pará. Em 1989, quando os índios protestaram pela primeira vez em Altamira contra a construção desta hidrelétrica, a índia Tuíra Kayapó encostou a lâmina de seu facão no rosto do então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes, num gesto de advertência. Desde então, Tuíra (que este ano voltou a prometer que os Kayapó e outras tribos do Xingu não deixarão que a usina seja construída) tornou-se uma referência dos índios e não-índios na luta contra as hidrelétricas do Xingu. Desta vez, após a apresentação do representante da Eletrobrás, Paulo Fernando Rezende, foi cercado por vários índios, gritando, chacoalhando-o pela camisa e ameaçando-o com facões e bordunas — o que (acidentalmente, eu presumo) resultou em um corte em seu braço direito.


Depois da confusão, o engenheiro da Eletrobrás foi ouvido pela Polícia Federal e fez exame de corpo de delito. O Ministério Público Federal pediu à Polícia Federal a abertura de inquérito para apurar o caso e a diretoria da Eletrobrás declarou que tomará todas as providências para que os responsáveis sejam punidos e que considera ainda retirar seus técnicos do encontro em Altamira. A empresa alega não haver clima para a sua permanência na cidade. Porém, a empresa e os sucessivos governos por trás dela já deveriam ter percebido há muito tempo que, na verdade, não há clima é para a construção da hidrelétrica, forte e continuamente rechaçada por boa parte da população local. Mas não, insistem, insistem e insistem em empurrá-la goela abaixo da população. O procurador federal Felício Pontes Júnior, que participou do encontro, disse que a agressão ao técnico da Eletrobrás "é um de que os índios vão resistir, fisicamente se preciso, contra o barramento do Rio Xingu".



Estava programado para sexta-feira, dia 23, no último dia do evento (depois, portanto, da publicação deste artigo), aquele que seria o seu ponto alto: a saída dos manifestantes para as ruas de Altamira, em passeata e ato público contra a construção da hidrelétrica. Até lá estão programadas palestras, debates e mesas redondas sobre as principais conseqüências da provável hidrelétrica à integridade ambiental da bacia do Xingu (com implicações alimentares para as populações tradicionais) e aos povos da região, índios e não índios. Além dos conflitos fundiários exacerbados pela instalação da obra, prevê-se a perda do acesso à água potável e o envenenamento e assoreamento dos rios, além de impactos sobre as populações de peixes e sobre o regime de secas e cheias do rio.



Espera-se discutir detalhadamente por que querem (e quem quer) construir as hidrelétricas. Estes interesses vão muito além da necessidade de levar energia elétrica para todos, ou de "sustentar o crescimento da economia", como se diz de forma genérica (aliás, argumentos fortes para a maior parte dos brasileiros e de difícil contraposição com discursos ambientalistas ou de defesa dos direitos dos povos tradicionais). Quantas são (ou podem ser), realmente, as usinas previstas? Em que estágio encontra-se o caso de Belo Monte? Questiona-se também a viabilidade econômica e jurídica do atual estudo de inventário do Xingu. Também será discutido o que já vem sendo feito para que o Xingu seja um lugar melhor para se viver com investimentos em desenvolvimento aliado à preservação ambiental. Tudo muito organizado, com o apoio da Igreja Católica, de ONGs, e a participação de professores de grandes universidades brasileiras, juízes e representantes do Ministério Público Federal. Mas este não é exatamente o estilo dos Kayapó, que usualmente, e esta é uma característica muito particular sua, dizem logo de cara a que vieram (diferentemente de tantos outros índios Brasil afora, muito mais dóceis).



Os Kayapó não quiseram ouvir a palestra do representante da Eletrobrás, que criticou o trabalho do professor Oswaldo Sevá, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp, muito admirado pelos índios, que organizou a magistral revisão "Tenotã-mõ – Alertas sobre as conseqüências dos projetos hidrelétricos no rio Xingu", discutido por mim, anteriormente, nesta coluna. Ininterruptamente vaiado em toda a sua apresentação, parece que Rezende elevou o tom do discurso. Isto provavelmente foi tomado como uma ofensa entre os índios que, desinteressados de sua versão dos detalhes técnicos do projeto, começaram a cantar e a dançar logo após o término da sua apresentação, cercando-o e dando início às ameaças que terminaram já se sabe como. A mensagem já foi clara anteriormente e o é novamente agora. Não querem a obra. Ponto. Para que se interessariam por detalhes técnicos? Imagine alguém chegar e tentar lhe convencer de que quer construir uma mega obra bem dentro da sua casa. Você não vai querer saber dos detalhes. Será contra e pronto.


Paralelamente ao início do encontro, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, confirmava que o leilão da usina hidrelétrica no Xingu está previsto para 2009. Ignorando que o licenciamento ainda não foi concedido e que o Xingu é um rio sazonal, que tem o seu volume de água extremamente reduzido em boa parte do ano, ele argumenta, sem explicar de onde tirou este número, que a usina terá capacidade para gerar 11.000 megawatts, o que representaria quase o dobro da capacidade somada das duas usinas do rio Madeira, Santo Antônio e Jirau. Aliás, a ONG Amigos da Terra Amazônia Brasileira entrou com duas ações civis públicas para tentar barrar a construção das usinas do Madeira, dado que o seu leilão não deveria ter ocorrido. Isto porque, em tese, ainda pode sair uma decisão contrária ao empreendimento quando as obras já tiverem começado, o que seria um desastre tanto para as empresas como para quem financia essas obras, como o BNDES. Segundo eles, o processo de licenciamento ambiental foi falho devido a pressões políticas do próprio presidente Lula, da ministra Dilma Rousseff e do Ministério de Minas e Energia sobre o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente, e pareceres desfavoráveis à concessão do licenciamento ambiental às usinas de Jirau e Santo Antônio foram engavetados (o que deu continuidade ao procedimento) e prevaleceu uma decisão política tomada às pressas dentro do Ibama.



Voltando ao caso do Xingu, eu já naveguei muito pelo rio Rizinho, seu afluente de segunda ordem, e sei que na época da seca a água mal corre nos leitos dos rios da região. O que o professor Oswaldo Sevá e várias outras autoridades no assunto (desinteressadas do fabuloso montante de dinheiro que será repassado para as empreiteiras que, como urubus, já cercam esta obra) alertam é que, dada esta limitação, a usina só poderá funcionar plenamente durante parte do ano e precisará do apoio de outras barragens a montante que lhe dêem suporte. "Não teremos mais dificuldades de energia elétrica neste país. Nem agora, nem amanhã, nem nunca", exagerou Lobão em um delírio megalomaníaco. Ridículo, pois se sabe bem que hidroeletricidade tem um potencial limitado e cedo ou tarde o crescimento econômico terá que se adaptar a esta oferta limitada de energia. Como isso não é discutido a sério, toda esta lengalenga, com ou sem a construção desta hidrelétrica, virá novamente daqui a alguns anos. E mais uma vez, sempre com os velhos argumentos, novas barragens, novas degradações, novos ataques aos últimos trechos de rios preservados do país.



Neste contexto, preocupa o fato de termos agora, com a saída de Marina do Ministério do Meio Ambiente, um ministro assumidamente performático, vestido em colete de bolinhas e reconhecido por agilizar processos de licitação ambiental e que impôs "condições" para aceitar o cargo, que depois viraram "sugestões" e logo mais não tinha importância se não fossem aceitas (na verdade, muito mais a cara deste governo Lula do que a muito séria e respeitada Marina Silva). Aliás, estranha a sua proposta de uma moratória total nos desmatamentos dentro de sete anos. Por que sete anos, no próximo governo? Moratória de qualquer espécie não se anuncia para o futuro. Decreta imediatamente quem pode. E "sete", como dizem, "é conta de mentiroso". Sua proposta de usar o exército para patrulhar unidades de conservação foi rechaçada e de toda sua agitação inicial só sobraram bravatas inócuas contra Blairo Maggi (de que ele, se pudesse, plantaria soja até nos Andes) e o "poluidores tremei" (que me parecem mais jogadas de marketing). Eu queria vê-lo encontrando-se com os Kayapó para convencê-los da necessidade de Belo Monte: Carlos Minc, tremei!



Finalmente, é bom que se destaque que o engenheiro não foi exatamente "atacado a golpes de facão" pelos índios, como noticiou o Jornal da Globo naquela noite. Se ele tivesse realmente sido atacado a golpes de facão pelos kayapó com a intenção de ferir ou matar, dificilmente escaparia vivo, dada a grande habilidade dos índios com estes instrumentos, utilizados inclusive para caçar. Mesmo resultando em (relativamente pequeno) derramamento de sangue, aquela ainda foi uma ameaça simbólica. Ainda assim, agressiva e lastimável como toda forma de violência. Mas explicável, pois vai contra um "inimigo" (não especificamente o sr. Paulo Fernando Rezende, mas o que ele representa) que se vale de todos os meios (legais e ilegais), inclusive da violência física, para atingir os seus objetivos corruptos e desenvolvimentistas, independente da vontade ou da opinião dos índios, e que insiste em ameaçar a sua terra e o seu modo de vida.



Rodolfo Salm, PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

Correio da Cidadania

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Manifesto para a renovação da história


ERIC HOBSBAWM

O desafio da razão: Manifesto para a renovação da história


É tempo de restabelecer a coalizão daqueles que desejam ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, contra aqueles que a deformam sistematicamente com fins políticos e simultaneamente, de modo mais geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. A análise é de Eric Hobsbawm.


Data: 11/04/2008

"Até agora, os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo; trata-se de mudá-lo." Os dois enunciados da célebre "Teses sobre Feuerbach", de Karl Marx, inspiraram os historiadores marxistas. A maioria dos intelectuais que aderiram ao marxismo a partir da década de 1880 —entre eles os historiadores marxistas— fizeram isso porque queriam mudar o mundo, junto com os movimentos operários e socialistas; movimentos que se transformariam, em grande medida devido à influência do marxismo, em forças políticas de massas.


Essa cooperação orientou de maneira natural os historiadores que queriam transformar o mundo na direção de certos campos de estudo —fundamentalmente, a história do povo ou da população operária— os quais, se bem atraíam naturalmente as pessoas de esquerda, não tinham em sua origem nenhuma relação particular com uma interpretação marxista. Por outro lado, quando esses intelectuais deixaram de ser revolucionários sociais, a partir da década de 1890, com freqüência também deixaram de ser marxistas.


A revolução soviética de outubro de 1917 reavivou esse compromisso. Lembremos que os principais partidos social-democratas da Europa continental abandonaram completamente o marxismo apenas na década de 1950, e às vezes ainda depois disso. Essa revolução gerou, também, o que poderíamos chamar de uma historiografia marxista obrigatória na URSS e nos Estados, que depois foi adotada por regimes comunistas. A motivação militante foi reforçada durante o período do antifascismo.


A partir da década de 1950 essa tendência começou a decair nos países desenvolvidos —mas não no Terceiro Mundo— apesar de que o considerável desenvolvimento do ensino universitário e a agitação estudantil geraram, dentro da universidade, na década de 1960, um novo e importante contingente de pessoas decididas a mudar o mundo. Contudo, apesar de desejar uma mudança radical, muitas delas já não eram abertamente marxistas, e algumas já não eram marxistas em absoluto.


Esse ressurgimento culminou na década de 1970, pouco antes do início de uma reação massiva contra o marxismo, mais uma vez por razões essencialmente políticas. Essa reação teve como principal efeito —exceto para os liberais, que ainda acreditam nisso— o aniquilamento da idéia de que é possível predizer, apoiados na análise histórica, o sucesso de uma forma particular de organizar a sociedade humana. A história havia se dissociado da teleologia.


Considerando as incertas perspectivas que se apresentam aos movimentos socialdemocratas e social-revolucionários, não é provável que assistamos a uma nova onda politicamente motivada de adesão ao marxismo. Mas devemos evitar cair em um centrismo ocidental excessivo. A julgar pela demanda de que são objeto meus próprios livros de história, comprovo que ela se desenvolve na Coréia do Sul e em Taiwan, desde a década de 1980, na Turquia, desde a década de 1990, e que há sinais de que atualmente avança no mundo árabe.


A virada social


O que aconteceu com a dimensão "interpretação do mundo" do marxismo? A história é um pouco diferente, ainda que paralela. Concerne ao crescimento do que se pode chamar de reação anti-Ranke, da qual o marxismo constituiu um elemento importante, apesar de que isso nem sempre foi totalmente reconhecido. Tratou-se de um movimento duplo.


Por um lado, esse movimento questionava a idéia positivista segundo a qual a estrutura objetiva da realidade era, por assim dizer, evidente: bastava com aplicar a metodologia da ciência, explicar por que as coisas tinham ocorrido de tal ou qual maneira e descobrir wie es eigentlich gewessen (como ocorreu realmente). Para todos os historiadores, a historiografia se manteve e se mantém enraizada em uma realidade objetiva, ou seja, a realidade do que ocorreu no passado; contudo, não está baseada em fatos e, sim, em problemas, e exige investigação para compreender como e por que esses problemas —paradigmas e conceitos— são formulados da maneira em que são o em tradições históricas e em meios socioculturais diferentes.


Por outro lado, esse movimento tentava aproximar as ciências sociais da história e, em conseqüência, englobá-las em uma disciplina geral, capaz de explicar as transformações da sociedade humana. Segundo a expressão de Lawrence Stone, o objeto da história deveria ser "propor as grandes perguntas do por quê". Essa "virada social" não veio da historiografia, senão das ciências sociais —algumas delas incipientes como tais— que naquele momento firmavam-se como disciplinas evolucionistas, ou seja, históricas.


Na medida em que é possível considerar Marx como o pai da sociologia do conhecimento, o marxismo —apesar de ter sido denunciado erradamente em nome de um suposto objetivismo cego— contribuiu para dar o primeiro aspecto desse movimento. Além disso, o impacto mais conhecido das idéias marxistas —a importância outorgada aos fatores econômicos e sociais— não era especificamente marxista, ainda que a análise marxista pesou nessa orientação, que estava inscrita em um movimento historiográfico geral, visível a partir da década de 1890, e que culminou nas décadas de 1950 e 1960, para benefício da geração de historiadores à qual pertenço, que teve a possibilidade de transformar a disciplina.


Essa corrente socio-econômica superava o marxismo. A criação de revistas e instituições de história econômico-social às vezes foi obra —como na Alemanha— de socialdemocratas marxistas, como ocorreu com a revista Vierteljahrschrift em 1893. Não aconteceu da mesma maneira na Grã Bretanha, nem na França, nem nos Estados Unidos. E inclusive na Alemanha, a escola de economia, marcadamente histórica, não tinha nada de marxismo. Somente no Terceiro Mundo do século XIX (Rússia e os Balcãs) e no do século XX, a história econômica adotou uma orientação principalmente social-revolucionária, como toda "ciência social". Em conseqüência disto, foi muito atraída por Marx.


Em todos os casos, o interesse histórico dos historiadores marxistas não se centrou tanto na "base" (a infra-estrutura econômica) como nas relações entre a base e a superestrutura. Os historiadores explicitamente marxistas sempre foram relativamente escassos.


Marx influenciou a história principalmente através dos historiadores e dos pesquisadores em ciências sociais que retomaram as questões que ele colocava, tenham eles trazido, ou não, outras respostas. Por sua vez, a historiografia marxista avançou muito em relação ao que era na época de Karl Kautsky e de Georgi Plekhanov, em boa parte graças à sua fertilização por outras disciplinas (fundamentalmente a antropologia social) e por pensadores influenciados por Marx e que completavam seu pensamento, como Max Weber.


Se destaco o caráter geral dessa corrente historiográfica, não é por vontade de subestimar as divergências que contém, ou que existiam no seio de seus componentes. Os modernizadores da história colocaram-se as mesmas questões e consideravam-se comprometidos nos mesmos combates intelectuais, seja que tenham buscado inspiração na geografia humana, na sociologia durkheimiana e nas estatísticas, como na França (simultaneamente, a escola dos Anais e Labrousse), ou na sociologia weberiana, como a Historische Sozialwissenschaft na Alemanha Federal, ou mesmo no marxismo dos historiadores do Partido Comunista, que foram os vectores da modernização da história na Grã Bretanha, ou que, pelo menos, fundaram sua principal revista.


Uns e outros consideravam-se aliados contra o conservadorismo na história, mesmo quando suas posições políticas ou ideológicas eram antagônicas, como Michael Postan e seus alunos marxistas britânicos. Essa coalizão progressista encontrou expressão exemplar na revista Past & Pressent, fundada em 1952, muito respeitada no ambiente dos historiadores. O sucesso dessa publicação foi devido que os jovens marxistas que a fundaram opuseram-se deliberadamente à exclusividade ideológica, e a que os jovens modernizadores provenientes de outros horizontes ideológicos estavam dispostos a juntar-se a eles, uma vez que sabiam que as diferenças ideológicas e políticas não eram um obstáculo para o trabalho conjunto.


Essa frente progressista avançou de maneira espetacular entre o final da Segunda Guerra Mundial e a década de 1970, naquilo que Lawrence Stone denomina "o amplo conjunto de transformações na natureza do discurso histórico". Isso até a crise de 1985, quando ocorreu a transição dos estudos quantitativos para os estudos qualitativos, da macro para a micro-história, das análises estruturais aos relatos, do social para os temas culturais. Desde então, a coalizão modernizadora está na defensiva, igual que seus componentes não marxistas, como a história econômica e social.


Na década de 1970, a corrente dominante em história tinha sofrido uma transformação tão grande, especialmente sob a influência das "grandes questões" colocadas ao modo de Marx, que escrevi estas linhas: "Com freqüência é impossível dizer se um livro foi escrito por um marxista ou por um não-marxista, a menos que o autor anuncie sua posição ideológica. Espero com impaciência o dia em que ninguém se pergunte se os autores são marxistas ou não". Mas, como também apontava, estávamos longe de semelhante utopia.


Desde então, pelo contrário, foi necessário sublinhar com maior energia qual pode ser a contribuição do marxismo para a historiografia. Coisa que não acontecia há muito tempo. Também porque é preciso defender a história contra aqueles que negam sua capacidade de ajudar-nos a compreender o mundo, e porque novos desenvolvimentos científicos transformaram completamente o calendário historiográfico.


No plano metodológico, o fenômeno negativo mais importante foi a edificação de uma série de barreiras entre o que ocorreu, ou o que ocorre, em história e nossa capacidade para observar esses fatos e entendê-los. Esses bloqueios obedecem à recusa em admitir que existe uma realidade objetiva, e não construída pelo observador com fins diversos e mutáveis, ou ao fato de afirmar que somos incapazes de superar os limites da linguagem, ou seja, dos conceitos, que são o único meio que temos para poder falar do mundo, incluindo o passado.


Essa visão elimina a questão de saber se existem esquemas e regularidades no passado, a partir dos quais o historiador pode formular propostas significativas. Contudo, também há razões menos teóricas que levam a essa recusa: argumenta-se que o curso do passado é contingente demais, ou seja, que é preciso excluir as generalizações, uma vez que praticamente tudo poderia ocorrer ou teria podido ocorrer. De modo implícito, esses argumentos miram todas as ciências. Vamos passar por alto tentativas mais fúteis de voltar a velhos conceitos: atribuir o curso da história a altos responsáveis políticos ou militares, ou à onipotência das idéias ou dos "valores"; reduzir a erudição histórica à busca —importante mas em si insuficiente— de uma empatia com o passado.


O grande perigo político imediato que ameaça a historiografia atual é o "antiuniversalismo": "minha verdade é tão válida quanto a sua, independente dos fatos". Esse antiuniversalismo seduz naturalmente a história dos grupos identitários em suas diferentes formas, para a qual o objeto essencial da história não é o que ocorreu, mas como isso que ocorreu afeta os membros de um grupo em particular. De modo geral, o que conta para esse tipo de história não é a explicação racional, mas a "significação"; não o que ocorreu, mas como sentem o que ocorreu os membros de uma coletividade que se define por oposição às demais em termos de religião, de etnia, de nação, de sexo, de modo de vida, ou de outras características.


O relativismo exerce atração sobre a história dos grupos identitários. Por diferentes razões, a invenção massiva de contra-verdades históricas e de mitos, outras tantas tergiversações ditadas pela emoção, alcançou uma verdadeira época de ouro nos últimos trinta anos. Alguns desses mitos representam um perigo público —em países como a Índia durante o governo hinduísta, nos Estados Unidos e na Itália de Silvio Berlusconi, para não mencionar muitos outros dos novos nacionalismos, acompanhados ou não de manifestações de integrismo religioso.


De qualquer modo, se por um lado esse fenômeno deu lugar a muito palavrório e bobagens nas margens mais longínquas da história de grupos específicos —nacionalistas, feministas, gays, negros e outros— por outro, gerou desenvolvimentos históricos inéditos e extremamente interessantes no campo dos estudos culturais, como o "boom da memória nos estudos históricos contemporâneos", como Jay Winter o denomina. Os Lugares de Memória, coordenados por Pierre Nora, é um bom exemplo.


Reconstruir a frente da razão


Diante de todos esses desvios, é tempo de restabelecer a coalizão daqueles que desejam ver na história uma pesquisa racional sobre o curso das transformações humanas, contra aqueles que a deformam sistematicamente com fins políticos e simultaneamente, de modo mais geral, contra os relativistas e os pós-modernos que se recusam a admitir que a história oferece essa possibilidade. Dado que entre esses relativistas e pós-modernos há quem se considere de esquerda, poderiam surgir inesperadas divergências políticas capazes de dividir os historiadores.


Portanto, o ponto de vista marxista é um elemento necessário para a reconstrução da frente da razão, como foi nas décadas de 1950 e 1960. De fato, a contribuição marxista provavelmente seja ainda mais pertinente agora, dado que os outros componentes da coalizão dessa época renunciaram, como a escola dos Anais de Fernand Braudel e a "antropologia social estrutural-funcional", cuja influência entre os historiadores foi tão importante. Esta disciplina foi particularmente perturbada pela avalanche em direção à subjetividade pós-moderna.


Contudo, enquanto os pós-modernos negavam a possibilidade de uma compreensão histórica, os avanços nas ciências naturais devolviam à história evolucionista da humanidade toda sua atualidade, sem que os historiadores percebessem cabalmente. E isto de duas maneiras. Em primeiro lugar, a análise do DNA estabeleceu uma cronologia mais sólida do desenvolvimento desde o aparecimento do homo sapiens como espécie. Em particular, a cronologia da expansão dessa espécie originaria da África para o resto do mundo, e dos desenvolvimentos posteriores, antes do aparecimento de fontes escritas. Ao mesmo tempo, isso evidenciou a surpreendente brevidade da história humana —segundo critérios geológicos e paleontológicos— e eliminou a solução reducionista da sociobiologia darwiniana.


As transformações da vida humana, coletiva e individual, durante os últimos dez mil anos, e particularmente durante as dez últimas gerações, são consideráveis demais para serem explicadas por um mecanismo de evolução inteiramente darwiniano, pelos genes. Essas transformações correspondem a uma aceleração na transmissão das características adquiridas por mecanismos culturais e não genéticos; poderia dizer-se que se trata da revanche de Lamarck contra Darwin, através da história humana. E não serve de muito disfarçar o fenômeno com metáforas biológicas, falando de "memes" ao invés de "genes". O patrimônio cultural e o biológico não funcionam da mesma maneira.


Em síntese, a revolução do DNA requer um método particular, histórico, de estudo da evolução da espécie humana. Além disso, vale a pena mencioná-lo, proporciona um marco racional para a elaboração de uma história do mundo. Uma história que considere o planeta em toda a sua complexidade como unidade dos estudos históricos, e não como um entorno particular ou uma região determinada. Em outras palavras: a história é a continuação da evolução biológica do homo sapiens por outros meios.


Em segundo lugar, a nova biologia evolucionista elimina a estrita distinção entre história e ciências naturais, já eliminada em grande medida pela "historicização" sistemática destas ciências nas últimas décadas. Luigi Luca Cavalli-Sforza, um dos pioneiros multidisciplinares da revolução DNA, fala do "prazer intelectual de encontrar tantas semelhanças entre campos de estudo tão diferentes, alguns dos quais pertencem tradicionalmente aos pólos opostos da cultura: a ciência e as humanidades". Em síntese, essa nova biologia nos liberta do falso debate sobre o problema de saber se a história é ou não uma ciência.


Em terceiro lugar, ela nos leva inevitavelmente para a visão de base da evolução humana adotada pelos arqueólogos e os pré-historiadores, que consiste em estudar os modos de interação entre nossa espécie e seu meio ambiente, alem do crescente controle que ela exerce sobre esse meio. O que eqüivale essencialmente a fazer as perguntas que já fazia Karl Marx.


Os "modos de produção" (seja qual for o nome que se quiser dar-lhes) baseados em grandes inovações da tecnologia produtiva, das comunicações e da organização social —e também do poder militar— são o núcleo da evolução humana. Essas inovações, e Marx era consciente disso, não ocorreram e não ocorrem por elas mesmas. As forças materiais e culturais e as relações de produção são inseparáveis; são as atividades de homens e mulheres que constroem sua própria história, mas não no "vácuo", não fora da vida material, nem fora do seu passado histórico.


Do neolítico à era nuclear


Consequentemente, as novas perspectivas para a história também devem nos levar a essa meta essencial de quem estuda o passado, mesmo que nunca seja cabalmente realizável: "a história total". Não "a história de tudo", mas a história como uma tela indivisível onde todas as atividades humanas estão interconectadas. Os marxistas não são os únicos que se propuseram esse objetivo —Fernand Braudel também fez isso— mas foram eles que o perseguiram com mais tenacidade, como dizia um deles, Pierre Vilar.


Entre as questões importantes que suscitam estas novas perspectivas, a que nos leva à evolução histórica do homem é essencial. Trata-se do conflito entre as forças responsáveis pela transformação do homo sapiens, desde a humanidade do neolítico até a humanidade nuclear, por um lado, e por outro, as forças que mantêm imutáveis a reprodução e a estabilidade das coletividades humanas ou dos meios sociais, e que durante a maior parte da história as neutralizaram eficazmente. Essa questão teórica é central.


O equilíbrio de forças inclina-se de maneira decisiva em uma direção. E esse desequilíbrio, que talvez supere a capacidade de compreensão dos seres humanos, supera com certeza a capacidade de controle das instituições sociais e políticas humanas. Os historiadores marxistas, que não entenderam as conseqüências involuntárias e não desejadas dos projetos coletivos humanos do século XX, talvez possam, desta vez, enriquecidos por sua experiência prática, ajudar a compreender como chegamos à situação atual.


Tradução: Naila Freitas / Verso Tradutores

da agencia carta maior

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Crise

A geopolítica dos biocombustíveis e a crise dos alimentos


Escrito por Carlos Walter Porto Gonçalves 19-Mai-2008




O bloco de poder tecno-científico-agroindustrial-financeiro-midiático se vê, pela primeira vez, tendo que responder perante a opinião pública pelo aumento dos preços dos alimentos, ainda que diante do aumento da oferta. Não que não houvessem críticas fundamentadas sobre os riscos da aventura de submeter os alimentos à lógica da liberalização dos mercados. Havia muitas e boas. O complexo de poder tecno-científico-agroindustrial-financeiro-midiático é de tal modo abrangente e abarcador que impede o livre debate, privando a sociedade do direito mínimo ao contraditório. É que as vozes críticas são vistas como "os do contra", "os mesmos de sempre" que "não são propositivos" e toda uma rede discursiva que a priori desqualifica o outro como um sem-razão, antes mesmo de ser um sem-terra, um sem-teto, um sem-emprego.

Insisto em chamar a atenção para as duas pontas desse bloco de poder – a tecno-científica e a midiática –, posto que se trata de um conjunto de conhecimentos que vêm do mundo da tecnociência e tem, na outra ponta, a mídia fechando o ciclo que estrutura esse bloco de poder . A página da ABAG (Associação Brasileira de Agribusiness, (http://www.abag.com.br/) explicita esse complexo de poder. Pablo Gonzalez Casanova, em seu livro "As Novas Ciências e as Humanidades – da academia à política" (Editora Boitempo, 2006), já havia nos alertado que é preciso uma dialética complexa para entender um capitalismo complexo onde o conceito de burguesia, por exemplo, se mostra pobre para dar conta desse novo complexo de poder que vem comandando o mundo, tendo como instituição-chave as grandes corporações e seus tentáculos nos organismos (nada) multilaterais e nos Estados devidamente reestruturados para atender a seus fins.

Estamos diante de um momento de explicitação do quão nocivo vem sendo para a humanidade e para o ambiente de todo o planeta a irresponsabilidade dessas políticas liberalizantes, agora por vozes que não mais "aquelas de sempre" e "daqueles do contra". Ainda recentemente pude assistir num desses debates entre iguais, ou pelo menos entre aqueles que se colocam num mesmo campo ainda que tendo diferenças, a repórter Mônica Waldvogel (da Globo News, uma das empresas do bloco de poder tecno-científico-agroindustrial-financeiro-midiático que consta da página na web da ABAG) manifestar, mesmo não sendo partidária da teoria da conspiração - uma teoria que eles mesmos inventaram e colocam na boca dos que querem criticar -, que haveria alguém por trás dessas críticas ao biocombustível brasileiro. É claro que a senhora Mônica Waldvogel jamais colocou a si a questão de investigar se haveria alguém por trás de todos aqueles que defendem o biocombustível, como se fosse simplesmente lógico e racional defendê-lo. É esse tipo de argumento que, de antemão, acredita que os críticos são sempre ilógicos e irracionais, a não ser que se coloquem no mesmo campo.

Tentar ver alguma conspiração contra o biocombustível brasileiro na atual crise de alta dos preços dos alimentos é ignorar as profundas ligações dos agronegociantes brasileiros com o complexo de poder que comanda o mundo e seu tenaz esforço por controlar o complexo de produção de energia, sobretudo depois da derrota político-militar da aventura dos EUA no Iraque e no Afeganistão e a perda do controle em países chaves como o Irã, a Venezuela e a Bolívia.

Ignacy Sachs, um dos principais pesquisadores ligados à temática da conciliação entre desenvolvimento e meio ambiente, teve a infeliz idéia de saudar os benefícios que o aumento dos preços dos combustíveis fósseis estaria trazendo para a mudança da matriz energética ao viabilizar a produção de combustíveis a partir da biomassa. Sem sabê-lo, Ignacy Sachs estava antecipando a aliança que em 2006 ataria os interesses do complexo de poder estruturado a partir do controle dos combustíveis fósseis estadunidenses, mais especificamente do petróleo, aos agronegociantes brasileiros. Sobretudo do setor sucroalcooleiro, por meio da criação da Associação Interamericana de Etanol, cujos presidentes são os senhores Roberto Rodrigues e Jeb Bush, pelo Brasil e pelos EUA respectivamente, se é que ser de algum país tenha alguma importância para esses protagonistas, a não ser para instrumentalizar os aparelhos estatais para seus fins corporativos, como vem acontecendo abertamente.

Como se vê, não são razões ambientais que estariam movendo esses agronegociantes em direção a uma transição energética mais amiga do planeta e da humanidade. Estamos aqui diante da tese do "desde que", ou seja, serão ambientalmente corretos "desde que" possam ter lucros que, no fundo, é o verdadeiro ‘leit motiv’. E, pior, é que são os mesmos protagonistas que especulam com os preços do petróleo que, na outra ponta, se apresentam com a "solução" do etanol e do biodiesel. Afinal, como afirmara em 2006 o economista Helder Pinto Jr., da UFRJ, na mesma linha de Ignacy Sachs, com o petróleo abaixo de US$ 40 por barril "a transição para uma matriz energética mais limpa seria postergada (...) a esse preço, a implantação dos biocombustíveis dependeria de subsídios governamentais, o que não faz o menor sentido", afirma o professor. "Com o preço do barril oscilando entre US$ 40 e US$ 80 (...) haveria uma tendência de os países usarem o álcool e o biodiesel como alternativas aos derivados de petróleo, inclusive importando esses combustíveis" (http://www.pnud.org.br/energia/reportagens/index.php?id01=2475&lay=ene). Os preços do petróleo atingiram US$ 120 por barril no início de maio de 2008. Os agrobionegociantes estão rindo á toa com a miséria alheia, como se não tivessem nada a ver com isso!

Há, inclusive, uma contribuição do aumento nos preços dos alimentos advinda do aumento do petróleo, como reconhecem até mesmo os ardorosos defensores dos biocombustíveis, como o senhor Lula da Silva. Deveria reconhecer, também, que sem esse aumento do petróleo não seria possível o desenvolvimento dos biocombustíveis.

Sabemos que o aumento dos alimentos não tem uma causa única, mas o componente do preço do petróleo bem que poderia ser minimizado, pelo menos nos países que são auto-suficientes, como é o caso do Brasil. Bastaria, simplesmente, desatrelar os preços internos do mercado internacional, já que não há nenhuma relação entre o aumento dos preços do petróleo e o aumento dos custos de produção e sequer com a diminuição da oferta do produto no mercado que, como informa a OPEP, vem aumentando. Mas isso ocorreria se a Petrobrás, por exemplo, fosse gerida de acordo com os interesses nacionais e não tratasse o petróleo como uma mercadoria e os negócios acima dos interesses do país.

Não é preciso lançar mão de nenhuma teoria conspiratória para ver a ligação entre o exponencial e meteórico aumento dos preços do petróleo e os interesses no etanol e no biocombustível. A migração de grandes capitais para esse setor demonstra o quanto os donos do poder de hoje procuram se mover para controlar a nova matriz energética. Afinal, a energia é a capacidade de realizar trabalho e o trabalho é a capacidade de transformar a matéria. Por isso, a energia é a matéria das matérias a ser controlada.

Quem controla a energia controla toda a capacidade de realizar trabalho. As velhas oligarquias brasileiras jogam uma cartada estratégica como um verdadeiro ‘global player’, como gostam de se afirmar. Sua presença internacional, seja no Haiti, seja em Gana (aqui inaugurando um centro de pesquisa da Embrapa), faz parte dessa estratégia dos grandes latifúndios empresariais monocultores de exportação.

Carlos Walter Porto Gonçalves é professor da Universidade Federal Fluminense e membro do CLACSO (Conselho Latino-americano de Ciências Sociais).

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Homens-cavalo



Repórter puxa carroça pelas ruas de SP durante 4 dias


Ele percorre cerca de 50 km puxando conjunto de 90 kg e recolhendo papelão

Pesquisa da prefeitura diz que os carroceiros de SP são homens (90%), com idade entre 41 e 55 anos (48%) e nascidos na cidade (23%)

GUSTAVO FIORATTI DA REVISTA DA FOLHA



Adquirir uma carroça em São Paulo é uma experiência. Por indicação de um carroceiro negro, alto, forte e sem os dentes da frente, vou comprar a minha em um tal de Alemão.

A "loja" do Alemão fica escondida sob uma ponte, no Bom Retiro. Alemão é um homem com cerca de 1,65 m, branco, cabelos claros, barba cerrada, roupas encardidas. Uma boa carroça ali custa R$ 250, um conjunto de ferro que pesa 90 kg. Fico com ela.
Um outro carroceiro aparece tão logo empunho o carrinho. "Tá começando?", ele questiona. Digo que sim e aproveito para pedir dicas de onde poderia vender papelão e onde dormir. Ele me recomenda o albergue Dom Bosco, no Bom Retiro. "Lá tem até chuveiro com água quente", completa. Vou para a porta do albergue Dom Bosco às 8h da terça-feira, dia 8 de abril, sem a carroça. Espero, do lado de fora, até as 13h30, para falar com a assistente social. Ela dá as caras, acompanhada de um segurança.

Diz que só há vaga para carroceiros. "Minha carroça está em outro lugar", esclareço.
A assistente estranha o fato de eu ter "boa aparência", apesar da barba crescida e da camiseta encardida. Para conseguir minha vaga, respondo a várias perguntas. Como soube do albergue? Há quanto tempo estou em situação de rua? Onde meus pais moram? Não poderia ficar na casa de amigo? Bebo ou uso drogas? Sou aceito depois de meia hora de conversa.

Estou agora bem próximo de um grupo que, segundo pesquisa da prefeitura, de 2005, é formado principalmente por homens (90%), com idade entre 41 e 55 anos (48%), nascidos na própria cidade (23%).
Ainda desconfiada, a assistente inicia uma breve explicação sobre a rotina no abrigo. É um lugar onde vivem cerca de 50 pessoas. Alguns conselhos são repetidos: "Estamos oferecendo uma facilidade. Não é para se acomodar, se tornar dependente dessa oferta"; "É importante manter coisas de valor trancadas no armário. Não deixe nada espalhado nem no banheiro"; "Não chegue bêbado nem alterado por drogas. Não chegue após as 22h, a não ser que tenha autorização." Por último, diz que não dão refeições. Paramos em frente ao espaço onde vou passar as próximas três noites: uma cama de colchão nu e um armário vazio.

Momentos depois, sou liberado da conversa para, enfim, buscar minha carroça.
Às 22h, as luzes se apagam. Uma gravação de quase meia hora com repetições do "Pai Nosso", da "Ave Maria" e de outras orações sinaliza a hora de dormir. No escuro, o silêncio é quebrado pelo choro de uma criança, pelo trem que passa ao lado e por roncos. Na manhã seguinte, somos despertados às 6h pelas mesmas orações. Há fila nos banheiros. Deixo o albergue às 7h30. Meu roteiro matinal passa pelos bairros de Higienópolis, Cerqueira César e Pinheiros.

Vou observando lixos e caçambas. Há pouco material. Vejo outros carroceiros passarem com papelões assentados sobre o fundo de suas carroças. Sou um concorrente, mas muitos me cumprimentam com um aceno de mão.
É hora de batalhar por mercadoria: arrisco pedir caixas em supermercados. Mas todos já têm acordos com outros carroceiros. Chego à avenida dr. Arnaldo todo suado, com não mais do que cinco ou seis caixas encontradas ao acaso.

Sigo, com uns 10 kg a mais nas costas. Meu destino é a rua Oscar Freire, nos Jardins. Na alameda Lorena, o segurança de uma loja de roupa assobia para me oferecer uma carga de papelão.
Depois de uma hora de caminhada, chego, enfim, à porta do sucateiro. São 13h30 e há uma fila de quatro carroças. Chega a minha vez. Vou empilhando todo aquele papelão com dificuldade. Consegui reunir quase 45 kg, mas calculo que mais de 5 kg tenham sido desperdiçados pelo chão da sucataria, na pressa imposta pelos funcionários.

Saio com R$ 7,20, o resultado de quase seis horas de trabalho.
Na descida até o Bom Retiro, começa a chover forte. A chuva traz certo alívio. Ameniza o calor. A cortina d'água parece barrar a poluição dos escapamentos. O sol volta a dar as caras no fim da rua Consolação. Chego à beira de minha cama exausto às 18h30, depois de percorrer 17,4 km. Sinto muita dor nas pernas, sobretudo no joelho.

Último dia


Nos momentos finais da reportagem, ando mais tranqüilamente pelas ruas do Bom Retiro e, no caminho, vou encontrando vários outros carroceiros. Todos erguem a mão, me cumprimentando. Retribuo, mais como um adeus do que como um aceno. Volto às 16h para o albergue, para pegar minhas coisas. Entrego a chave do armário junto com os lençóis. Alguns dos que passam por lá nem isso fazem. Simplesmente desaparecem. É o momento de me despedir do personagem carroceiro. Deixo a carroça numa garagem, após percorrer 16,7 km.

Somadas as andanças dos três dias de trabalho, percorri exatos 49,2 km. Desta experiência fica este relato, um testemunho de quem sobreviveu 72 horas na pele de um homem-cavalo.

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Telecomunicações


Falso nacionalismo justifica monopólio nas telecomunicações

Escrito por Mateus Alves 29-Jan-2008



A provável fusão entre duas das principais empresas de telefonia do país, a Brasil Telecom e a Oi (ex-Telemar), já vem sendo anunciada há algum tempo – assim como os planos do governo de retomar seu papel no setor, considerado de fundamental importância estratégica.


De acordo com informações oficiais, o anúncio da fusão das empresas já foi feita ao Planalto e o trâmite burocrático já começa a ser preparado, pois existem empecilhos legais, estabelecidos com a privatização do setor, que impedem que uma única empresa de telefonia esteja presente em todos os estados da federação.


Como principal motivo a justificar a fusão das empresas, o governo, por meio de seu ministro das Comunicações, Hélio Costa, cita a necessidade de uma empresa de capital majoritariamente nacional, que conte com capacidade de controle por parte do Estado e que seja capaz de competir com as duas outras grandes empresas de telecomunicações que atuam país: a Telefónica espanhola, responsável também pelas operações da rede de celulares Vivo, e a Telmex, empresa de origem mexicana que controla a Embratel e a Claro.


Segundo Costa, a criação de uma megaempresa de telecomunicações brasileira é uma “grande oportunidade que o Brasil tem de oferecer melhores serviços e de não ficar, evidentemente, nas mãos de grupos internacionais”.

A megaempresa, que passaria a ser a maior operadora de telefonia do Brasil, não seria estatal, podendo ter capital privado e estrangeiro. No entanto, uma cláusula golden share, que impossibilitaria sua venda sem a aprovação do governo, poderia também estar presente em sua constituição – fato que já ocorre, por exemplo, com a Embraer. Uma outra possibilidade seria a instalação de vetos por parte do BNDES como acionista da nova empresa.


Em relação às manobras para viabilizar e legalizar a fusão, Marcos Dantas, especialista do setor e professor do Departamento de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, acredita que estas já se encontram em estágio avançado. “Se estão falando sobre isso agora é porque já existe um encaminhamento político dessa questão junto às esferas governamentais”, diz.


As principais mudanças na legislação brasileira se dariam no âmbito de uma alteração no Plano Geral de Outorga, cujo intuito é impedir a formação de monopólios no setor. Para adequar a nova empresa às leis vigentes, o Plano precisaria ser alterado – fato que poderá acontecer através de um decreto presidencial.


Negociações nebulosas


A fusão entre as empresas, no entanto, tem sido pouco divulgada para a mídia e para a sociedade em geral, deixando as negociações em um campo nebuloso e trazendo dúvidas sobre as reais intenções do governo ao permitir a fusão.


“Todas as informações sobre a fusão chegam de forma vazada, não há transparência”, diz Samuel Possebon, jornalista, consultor e pesquisador na área de comunicações. Para ele, o governo precisa dar uma boa justificativa para permitir a fusão e a mudança no Plano Geral de Outorga.


“Os únicos que serão beneficiados com a fusão, primeiramente, serão os grupos privados que administrarão a nova empresa”, continua Possebon. Para o jornalista, eventuais benefícios para a população só viriam com a instalação de uma política de Estado que incluísse a empresa. “Estamos na expectativa de que o governo anuncie a sua posição”, completa.


A fusão também sofre críticas por parte de entidades voltadas à defesa do consumidor, preocupadas com a diminuição da concorrência no setor. De acordo com Luiz Fernando Moncau, advogado do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), “a competitividade prometida com a privatização nunca aconteceu e agora a gente caminha cada vez mais para uma situação em que poucas empresas vão monopolizar esse serviço”.


A fusão entre as empresas também levanta questionamentos do ponto de vista ético, uma vez que a Oi possui sociedade na empresa Gamecorp com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do atual presidente brasileiro.


Samuel Possebon, no entanto, acredita que tal fato não está influenciando na decisão, pois não existem denúncias de lobbies e de favorecimentos. “No entanto, o assunto deverá fazer parte da explicação que o governo deve dar sobre a autorização da fusão”, diz.


Leia também o artigo de Léo Lince sobre a fusão da Oi e da Brasil Telecom.

Com Agência Brasil

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Uniso

DCE quer dados sobre despesas e receitas da Uniso

O Diretório Central dos Estudantes "Francisco Alves Capucho Jr." (DCE Capucho), da Universidade de Sorocaba, protocolou requerimentos em que solicita diversas informações da reitoria da universidade. O ofício questiona ainda o impedimento da participação do DCE no Conselho Universitário (Consu), conforme estabelece o estatuto da universidade o que, segundo dirigentes do DCE, é um ato antidemocrático.


No documento, a entidade estudantil também solicita cópia das planilhas de receitas e despesas da Uniso, elaboradas pela Fundação Dom Aguirre (entidade mantenedora da universidade) durante o período 2005 a 2008, com o intuito de buscar informações sobre a real situação financeira da Universidade, que alega estar sofrendo uma crise financeira, que seria fruto da inadimplência.




Segundo o Diretório Estudantil, a motivação da ação parte da inflexibilidade da instituição, que nos últimos anos se demonstrou rígida e intolerante quando da negociação das dívidas dos estudantes com dificuldades financeiras, o que resultou na impossibilidade do prosseguimento dos estudos de muitos alunos. Para Fernando Souza, diretor do DCE, “a reitoria deposita toda culpa da alegada crise nos alunos”.


Professores exclusivos


O DCE também solicita lista de professores que prestam serviços à universidade com as respectivas titulações acadêmicas, a fim de verificar se a Uniso cumpre com a exigência mínima prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de um terço do corpo docente possuir título de mestrado ou doutorado, “essa exigência é fundamental para garantir qualidade mínima do ensino e deve ser respeitada pelas Instituições”, afirma Gilson Amaro, presidente do DCE Capucho.


Matérias publicadas em jornais da cidade apontam a Uniso entre as 49 universidades privadas do país que descumprem os requisitos estabelecidos pela LDB (Lei de Diretrizes de Base da Educação) do MEC (Ministério da Educação) quanto ao quadro de professores que trabalham em regime de exclusividade.


"Quem paga a conta, mais uma vez, é o estudante. Com professores que cumprem dupla jornada, a qualidade das aulas é afetada", opina Gilson Amaro. Para o dirigente estudantil, a Uniso trata a educação como "mercadoria", ao "fazer de tudo para aumentar os seus ganhos e diminuir as despesas, não se importando com a qualidade do ensino oferecido aos estudantes – que a cada semestre enfrentam mais dificuldades para pagar as mensalidades".


Nos próximos dias, o DCE levará essas questões a debate com os estudantes da universidade.

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Brasil

Brasil: seguro para quem?


Em uma operação do mercado financeiro recebida com grande alvoroço e apoio pelo governo e a grande mídia, o Brasil foi recentemente promovido a condição de país "seguro para investimentos".


A condição atestada pela agência Standard & Poor's provocou recordes de valorização na Bolsa de Valores de São Paulo no dia 30 de abril (teve a maior alta em um dia desde outubro de 2002), declarações oficiais do governo comprometendo-se em transformar o Brasil em lugar cada vez mais "seguro" e estável, promessas e notícias de novos investimentos que farão do Brasil uma potência nos próximos anos e por aí vai.


A nova "promoção" do Brasil teve um componente que lembrou muito as operações artificiais de valorização, típicas do mercado financeiro.


Artificial porque, em um momento de crise internacional, com o preço do petróleo ameaçando jogar ainda mais "combustível" na explosão inflacionária dos alimentos no mundo, pode fazer pouco sentido tamanha euforia nos papéis cotados na Bolsa de Valores de São Paulo se a "nota" concedida pela Standard & Poor's colocou o Brasil no mesmo patamar de estabilidade, por exemplo, do Cazaquistão.


Mas o pior da história é que existe razão de ser para tamanha alegria do grande capital. Notem a coincidência. No mesmo dia do anúncio desta "promoção" era noticiado que o governo conseguiu um novo recorde trimestral no superávit primário: R$ 43,032 bilhões, mais do que suficientes para pagar os R$ 39,998 bilhões apenas de juros da dívida pública no primeiro trimestre deste ano.


Deste ponto de vista, o capital financeiro não tem o que se queixar do Brasil, nem do governo Lula, que cumpriu a palavra de garantir a remuneração aos "investidores", conforme documentos revelados pelo jornal Valor Econômico em 08/05/2008, sobre os bastidores da aproximação do governo brasileiro com o governo Bush desde a época da eleição de 2002.


Bom para o Capital, ruim para os trabalhadores


A realidade é que, para garantir a remuneração do capital financeiro à custa de recursos do próprio orçamento, o povo recebe em troca a epidemia de dengue. Afinal, o importante é reservar R$ 43 bilhões em três meses ao invés de tomar as medidas e investimentos na saúde, tanto emergenciais quanto estruturais, que permitissem debelar a epidemia e extinguir a dengue no país.


A segurança para o grande capital é diretamente proporcional à insegurança para os trabalhadores e as classes médias diante da explosão do preço dos alimentos, que já fez a inflação ultrapassar 5% ao ano (março de 2007 a março de 2008). E isso em uma economia onde não existe qualquer mecanismo previsto de proteção salarial diante da corrosão inevitável, que, aliás, já começa a pulverizar os poucos ganhos que milhares de trabalhadores conseguiram a duras penas em negociações e dissídios no ano passado.


Para o grande capital ter muita segurança e lucros garantidos devido às altas taxas de juros praticadas, o povo vai passar a conviver com a incerteza diante da perspectiva de endividamento no crédito ou até inadimplência, especialmente para as camadas da classe trabalhadora amarradas ao crédito consignado em folha de pagamento.


É na esteira desta estúpida euforia que o governo federal, com o aval das centrais sindicais que o apóiam, volta a sinalizar com uma "negociação" na legislação trabalhista, com o objetivo de desonerar a folha de pagamentos para baratear, com a retirada de direitos, ainda mais a mão-de-obra no país. Afinal, é preciso aproveitar o momento de "promoção" do país para atrair ainda mais capitais e investimentos para a produção e infra-estrutura.


Ilusão entreguista da pior espécie, pois o grande capital não parece acreditar nos factóides da Standard & Poor´s e trata de aumentar as remessas de lucros para fora do país (apenas em março, US$ 4,345 bilhões).


Conclusão: se isto aqui for seguro, só mesmo para o grande capital, especialmente o financeiro. Para os trabalhadores, o cenário será cada vez mais inseguro. Ficará colocada a eles e aos movimentos sociais a necessidade de se começar a construir uma pauta de reivindicações diante deste cenário.


A luta contra o aumento do preço dos alimentos; a defesa de mecanismos de reposição geral de perdas do poder aquisitivo, provocadas por esse novo surto inflacionário; a defesa da redução da jornada de trabalho para gerar emprego, mas sem redução dos salários e sem a retirada de direitos sociais e trabalhistas; a denúncia do pagamento e remuneração ao capital financeiro pela via da dívida pública. São todas questões que tendem a ser cada vez mais concretas para os trabalhadores e o povo diante do desastre social para o qual que caminha o país sob a batuta do capital financeiro e a euforia cega e servil do governo Lula.

Fernando Silva é jornalista, membro do Conselho Editorial da revista Debate Socialista. fonte-CC


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