O núcleo de Sorocaba do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), em conjunto com o Diretório Central dos Estudantes “Francisco Alves Capucho Jr.”, da Universidade de Sorocaba, realizou na noite de ontem (9) debate sobre as “Metamorfoses da consciência de classe”.
O mestre e doutor em Sociologia Mauro Iasi foi o convidado, discorrendo sobre a questão de consciência de classe para cerca de 200 estudantes e vários professores que ocuparam o Salão Vermelho, do campus Trujillo da universidade.
Autor do livro “Metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento”, Iasi afirmou que o Partido dos Trabalhadores chegou à Presidência da República um tanto “diferente daquilo que programática e politicamente propunha quando da sua fundação”.
Para explicar o processo pelo qual passou o Partido que “hegemonizou a política nas últimas décadas”, o sociólogo começa pelo ponto de que “a classe em si mesma, os trabalhadores em si mesmos não são nem revolucionários, nem reformistas. Essas são apenas duas maneiras que os trabalhadores se expressam na sua construção de classe”.
O PT, para o sociólogo, unificou todos os trabalhadores para entrar em luta contra o capital. No entanto, em conseqüência às mudanças na produção e na política mundial no final da década de 80, presencia-se “uma curiosa trajetória”.
“No início dos anos 80 o PT se afirmava como um partido classista, com uma proposta anti-capitalista e um horizonte socialista; buscava-se uma revolução democrático-popular. Mas esse discurso foi, pouco a pouco, se alterando. Palavras-chave como socialismo, revolução e classe trabalhadora são trocadas por políticas públicas, alianças, cidadania, ampliação da democracia”.
A mudança do horizonte e do programa partidário, com a idéia de aliança de classes, orienta a eleição de Lula. “Mas o PT percebe que aquilo que era suficiente para ganhar as eleições, não era suficiente para manter a chamada governabilidade”.
Assim, essas alianças foram ampliadas e os eixos do ‘governo popular’ – o investimento na área social, a democratização do Estado e o crescimento da economia. “Se eu tenho três eixos estratégicos, mas se para os dois primeiros darem certo o terceiro tem que acontecer. Qual o verdadeiro eixo estratégico? O terceiro: crescer. E, curiosamente, crescer era o objetivo de uma das classes pactuadas: a burguesia”.
O PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), a “grande proposta” do segundo mandato de Lula, é para o sociólogo a reedição de algo que já conhecemos: “crescer o bolo para depois dividir”. “Só que estamos esperando crescer o bolo desde a ditadura militar, na década de 60. O bolo cresceu, mas esse crescimento não foi passado para a parte da sociedade que trabalha”.
“O PT, que saiu de uma força que tinha independência de classe, uma proposta socialista de ser uma proposta política inovadora; termina o seu ciclo defendendo o desenvolvimento capitalista, perdendo a sua autonomia de classe, fazendo aliança justamente com aqueles que julgavam ser os responsáveis pelos problemas e mantendo a estrutura capitalista como sendo insuperável. O socialismo vira um estado de espírito”.
O intelectual socialista considera essa fase o fim de um ciclo: “Estamos vivendo um processo interessante: aquilo que a classe construiu como a sua expressão se acomodou em nome da classe. A expressão se separou, ganhou vida própria. Eles encontraram um ponto de acomodação no capitalismo: uma enorme burocracia partidária e sindical. Eles se separaram da classe e começaram a negociar em seu nome. Mas a classe não achou esse ponto de acomodação, por isso a gente fala que esse ciclo se fecha com todas as contradições que nos permite iniciar um novo ciclo. Essa classe vai entrar em conflito com capitalismo, pois a possibilidade de o capitalismo se tornar justo não existe”, conclui.
fonte: PSOL-Sorocaba
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