O primeiro de Maio que as televisões não mostraram

Marcelo Netto Rodrigues> da Redação Brasil de Fato

Na Praça da Sé, movimentos sociais, partidos e setores de esquerda da CUT criticam as festas promovidas pela central e pela Força Sindical, que tiveram patrocínio de empresas privadas como Nestlé e Telefônica
No dicionário, a palavra contrafação aparece como fingimento, simulação, falsificação de valores de modo a iludir sua autenticidade. Na boca do histórico militante de esquerda, Plínio Arruda Sampaio, a palavra ganhou mais um significado neste primeiro de maio: os atos promovidos pela Força Sindical e pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), em comemoração ao Dia do Trabalho (veja a origem desta data).
"As festas promovidas pelas duas centrais sindicais são uma contrafação. Aqueles que traíram os trabalhadores até reúnem mais gente, com sorteios ou shows, mas não conseguem fazer o nosso discurso de humanidade e esperança", disse Sampaio, na manifestação organizada por partidos de esquerda, movimentos sociais e alguns sindicatos filiados a CUT - que foi completamente ignorada pelos telejornais -, realizada na Catedral da Praça da Sé.

A indignação de Plínio faz sentido: os atos da CUT e da Força Sindical foram terceirizados. Foram privatizados no stricto senso. A contratação dos artistas - muitos pateticamente se apresentando nos dois eventos em horários distintos - foi viabilizada pela iniciativa privada, com a venda de cotas de patrocínio. "Estão camuflando a história de luta dos trabalhadores", faz coro a Plínio, o coordenador da Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo, Waldemar Rossi.

Nada comparado ao ideal de resistência que esteve presente no ato dos movimentos sociais e partidos de esquerda. O ato, que começou às 9 horas com uma missa celebrada pelo arcebispo de São Paulo, cardeal dom Cláudio Hummes, terminou em frente à Prefeitura às 14 horas, após uma passeata de duas mil pessoas por três quilômetros - a presença de público dobrou em relação ao ano passado. Entre os vários cartazes, um em especial chamava a atenção: estampava qual o valor real que o salário mínimo deveria ter segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese): R$ 1.510, 36.

Durante a celebração religiosa, duas cenas marcantes: a entrada pela nave central da catedral de um carrinheiro do Movimento Nacional dos Catadores de Rua (MNCR), com seu carrinho cheio de material reciclável ostentando os dizeres "Coleta seletiva feita pelos catadores já". E a presença no altar de uma bandeira com o rosto de Che Guevara, acolhida por Hummes na hora do ofertório.

CRÍTICAS AO NEOLIBERALISMO> Para um moderado no espectro católico, Hummes foi bastante crítico em seu sermão: "A globalização, os ajustes econômicos para abrir o mercado, o neoliberalismo que exclui grande parte da humanidade são os responsáveis pelo crescimento astronômico do desemprego. Existem países que estão até mesmo reinventando a pobreza", disse.

"Eu mesmo fui envolvido no caso das demissões da PUC, numa das situações mais dolorosas da minha vida. Se as demissões não tivessem ocorrido, a universidade teria fechado suas portas. Eram R$ 4 milhões de dívidas por mês", explicou. "O problema é que a lei não permite diminuir os salários. E os salários astronômicos de alguns impedem a criação de empregos para tantos outros", continuou sem fazer uma alusão direta à situação da PUC.

De repente, o cardeal chamou o padre Júlio Lancelotti, que estava ao seu lado no altar, para que desse a informação de primeira mão: a de que o presidente Lula havia conversado com ele por telefone confirmando a assinatura de uma medida provisória que destina dois terrenos na cidade de São Paulo para a construção de apartamentos para os catadores de material reciclável, mediante financiamento com a Caixa Econômica Federal. A celebração terminou com o chamamento de Waldemar Rossi para que os desempregados se organizem.

COMEMORAR O QUÊ?> Fora da igreja, do alto do carro de som, um dos organizadores do ato explicava: "Somos aqueles que não aceitamos fazer festa num dia em que não temos o que comemorar, aqueles que não nos submetemos a festas bancadas por transnacionais e bancos" - o ato do CUT, por exemplo, contou com os patrocínios da Nestlé, da Telefônica, da Tim, do Bradesco e da Caixa. Até mesmo a Bovespa o patrocinou.

"Nosso ato está conectado com as demonstrações da juventude francesa, dos latinos imigrantes sem papéis nos Estados Unidos. Nossas bandeiras são: trabalho, teto, terra, salário e direitos sociais", discursou momentos depois Dirceu Travessos, do PSTU - que reiterou a disposição já anunciada do seu partido de pleitear a vaga de vice na chapa de Heloísa Helena (PSOL).

Ao que Plínio parece ter respondido: "Temos de unir a esquerda. Unir as bandeiras daqueles que não abandonaram o povo. Eu vejo que estão aqui bandeiras do PSTU, do PCO. Nossa tarefa é dar esperanças a quem teve uma grande decepção. E para isso, temos de buscar a unidade".

NÚMEROS QUE ENGANAM> A Força Sindical reuniu um milhão de pessoas no Campo de Bagatelle num ato que teve o presidente Lula como principal alvo. Só que a maioria dos trabalhadores que foram até lá estavam mesmo preocupados em participar de um sorteio de cinco apartamentos e dez carros novos. O prefeito Gilberto Kassab só conseguiu falar por dez segundos. O evento teve como lema "menos impostos, mais empregos".

Um abaixo-assinado foi lançado para que os impostos apareçam descriminados nos rótulos dos produtos - algo semelhante com o que acontece nos Estados Unidos. Segundo informações da Força Sindical, 18% do preço do arroz e do feijão são de impostos. No caso do açúcar, a porcentagem chega a 40%, e no caso do óleo 37%. A central decidiu encampar uma iniciativa lançada pelo ex-deputao federal Afif Domingos, atual presidente da Associação Comercial de São Paulo, com apoio sobretudo do PFL e do PL.

O evento da CUT também contou com um milhão de pessoas. Na maioria, adolescentes em clima de "pegação" e entusiasmados com os mais de 20 shows programados. Ao ser perguntado se conhecia quais bandeiras a CUT estaria defendendo este ano - democracia, emprego, renda e ampliação de direitos -o jovem Márcio Bezerra da Silva foi enfático: "Bandeiras? Eu conheço as bandas".

No palanque, aliados de Lula. Mercadante e Marta, pré-candidatos ao governo de São Paulo, estavam presentes, mas não discursaram. O presidente Lula não compareceu a nenhum dos eventos. Participou apenas da missa de Primeiro de Maio da matriz de São Bernardo do Campo, repetindo a tradição que faz desde 1979.

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