Nada de propostas, questões pontuais ou demandas que precisam ser atendidas no exercício do mandato. O primeiro debate entre representantes locais dos partidos que encabeçam as coligações que disputam a Presidência da República, ontem, na Uniso, aprofundou a análise de temas pouco focados na campanha eleitoral: o papel do Estado, o pacto federativo e as distorções da representatividade política; o processo de privatizações; causas e efeitos da onda de violência, e expectativas em relação ao país, entre outros.
Deixamos o varejo de lado para discutir assuntos quase sempre tratados superficialmente. Como não poderíamos trazer os próprios presidenciáveis, convidamos lideranças das siglas, disse o diretor de comunicação do Diretório Central do Estudantes (DCE), da Uniso, Willian Alves.
O objetivo do encontro, que contou com as presenças do tucano Antonio Carlos Pannunzio, que concorre à reeleição pelo PSDB, e o vereador e candidato a deputado estadual pelo Psol, Raul Marcelo, foi, segundo a organização, proporcionar ao público visão diferenciada do quadro político. Gabriel Bittencourt, representante do PT, não pôde comparecer porque, conforme assessores, passou mal pela manhã e teve de suspender a agenda que cumpriria.
O debate obedeceu à seguinte dinâmica: nos dois primeiros blocos, os convidados analisaram temas comuns, com direito à réplica e à tréplica. No terceiro, fizeram questionamentos entre si e, no quarto e último, responderam às perguntas dos estudantes.
O interessante é que, apesar das divergências de fundo partidário-ideológico, Pannunzio e Raul demonstraram, pelo menos em alguns aspectos, que mais concordam do que discordam. Os candidatos se mostraram favoráveis à revisão dos critérios para investimento na Educação, particularmente no ensino superior. A reforma política é outro ponto de consenso entre as lideranças. Os dois políticos querem ver ampliada a representatividade de São Paulo no Congresso.
Reforma política
Raul Marcelo lembrou que o relator do projeto da reforma política, Rubens Otoni (PT-GO), calculou em R$ 12 bilhões o custo das eleições de 2002. Pannunzio destacou que as mudanças decretadas pela Constituição promulgada em 1988 resultaram em absurdos como o fato de 11 Estados, cuja soma da população não chega à metade do total de habitantes de São Paulo, terem conseguido eleger 88 deputados e 33 senadores, contra os 75 parlamentares da bancada paulista.
Os políticos pregaram a revisão do pacto federativo, declararam apoio ao financiamento público de campanha e à reforma partidária. Existem legendas nanicas que só se prestam ao aluguel, como o caso noticiado há poucas semanas no qual o dirigente tentou vender espaço no horário eleitoral, comentou o deputado tucano.
Raul Marcello foi mais além e atacou, num outro momento do debate, a desigualdade da legislação em vigor. Uma pessoa que furta toca-fitas é autuada em flagrante, passa anos na cadeia. Nestas eleições, assistimos caso de deputado que confessou ter se apropriado de R$ 10 milhões, no esquema do mensalão, e que aparece na tevê como se nada tivesse acontecido. E prosseguiu: Waldemar Costa Neto, Celso Pitta, que desfalcou a Prefeitura paulistana; malufar está no dicionário como sinônimo de roubar; Pallocci, que quebrou o sigilo do caseiro e tantos outros exemplos negativos. Todos estão aí e podem ser eleitos, disparou o vereador.
Privatizações
Os candidatos divergem, é claro, quando a conversa envereda pelo campo minado das privatizações. Segundo Pannunzio, foi graças ao processo que, no caso das telecomunicações, o acesso a aparelhos celulares foi praticamente universalizado. A população não sofreu prejuízo algum.
Fonte: Cruzeiro do Sul (21/09/06)
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