O espiral da barbárie e a mobilização das classes populares

(Plínio de Arruda Sampaio )
Na sociedade, tal como na natureza, certos processos são cumulativos, manifestando-se unicamente após um determinado número de ocorrências. Geralmente, as primeiras manifestações são menos graves. Um pequeno inchaço inexplicável em alguma parte do corpo sinaliza um processo alérgico a ser detectado antes que surtos futuros provoquem sérios danos. Mas é comum desconsiderar os primeiros sinais até que o evento que marca a explosão do processo com toda sua virulência.

O desafio que o crime organizado lançou ao governo do Estado de São Paulo precisa ser analisado a partir desta perspectiva. Ele evidencia a existência, na sociedade paulista, de um acúmulo de fatores que corroem as instituições públicas e as tornam ineficazes. Não é nenhum exagero dizer que, se esses fatores não forem identificados e removidos, a instalação de uma estado de caos social, muito maior do que o atual ataque do PCC em São Paulo, é apenas uma questão de tempo.

Infelizmente, em vez de atentar para a gravidade do risco que a sociedade paulista está correndo, os partidos da classe dominante estão usando o episódio para fazer politicagem. Uns propõe um acordo por cima para evitar críticas, outros travam uma guerrinha política menor - um acusando o outro de imprevidência, falta de energia e outras críticas do mesmo teor.

Ora, isto tudo é o irrelevante diante do tamanho do atrevimento dos bandidos. Nem na Chicago de Al Capone, os gangsters tiveram a ousadia de atacar diretamente a Polícia. Comparável com o que aconteceu em São Paulo, só a investida de Pablo Escobar contra o governo de Gavíria, na Colômbia.

Se as pessoas estão de fato horrorizadas com o que está acontecendo, a única atitude lógica é fazer um exame profundo da situação social do país e da deterioração moral de suas instituições e das pessoas que as dirigem. A partir desse diagnóstico é preciso ter a coragem de tomar medidas drásticas para deter o processo degenerativo antes que ele adquira uma velocidade incontrolável.

A estratégia correta para deter a escalada do crime organizado não consiste apenas em dotar a polícia de armas mais poderosas e em aumentar as penas das infrações criminais, mas, principalmente, de reestruturar de cima abaixo todo o aparelho repressivo do Estado, substituindo primitivos métodos de repressão adotados atualmente por métodos baseados nos recursos modernos da psicologia e em experimentos exitosos com a aplicação de penas mais humanas e mais eficazes. Essa revisão não pode deixar de abranger uma verdadeira devassa na vida dos integrantes dessas instituições, porque todos sabem que não há crime organizado sem conexões com altas autoridades do aparelho repressivo do Estado.

Mas nada disto terá efeito se a reestruturação do aparelho repressivo não for acompanhada por uma verdadeira reforma urbana, pois, como é conhecido de todos, a aglomeração de grande número de pessoas em habitações precárias, em espaços reduzidos e de vias de circulação estreitas, favorece a logística do crime e dificulta a vigilância policial.

Mas isto não basta. É fundamental que junto com essas medidas, o Estado ofereça educação e meios de um lazer saudável à juventude da periferia das cidades. Não é outra coisa o que essa juventude demanda, como o atestam as letras do “hip hop”.

A classe dirigente não tem condições de fazer esse diagnóstico e, menos ainda, de tomar essas medidas porque isto implicaria cortar na própria carne. Na verdade, ela só consegue pensar em mais truculência contra a truculência dos bandidos quando, na verdade, o problema só poderá ser resolvido quando a sua própria truculência for detida.

O aspecto dramático do ataque à Polícia é que ele revela a incapacidade da classe dominante para continuar dirigindo do Estado brasileiro. Como explicou Florestan Fernandes, essa classe social esgotou, há tempo, sua capacidade de exercer uma função civilizatória na sociedade brasileira (se é que algum dia a tenha exercitado plenamente). Precisa ser removida do poder, para que os problemas da Nação possam ser efetivamente solucionados.

Hoje, na sociedade brasileira, somente entre as camadas populares existem energias morais e espirituais para civilizar a repressão e reduzir o crime. O primeiro passo, portanto, consiste em mobilizá-las para conquistar o controle do poder político da Nação.

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