Tarifas de ônibus concentram renda!


Luís Brasilino da Redação- (Fonte: Jornal Brasil de Fato)

O gasto com transportes já representa a terceira maior despesa dos brasileiros, como mostra a Pesquisa de Orçamentos Familiares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2002-2003. Nas cidades, corresponde a 15% de tudo o que ganham. Fica atrás apenas de habitação (30%) e alimentação (16%), à frente dos gastos com vestuário (5%), assistência à saúde (5%), educação (4%) e recreação e cultura (2%).Nessa conta, o IBGE considera o transporte urbano (ônibus, táxi, metrô, trem, barca e transporte alternativo), gasolina e álcool para veículo próprio, manutenção de veículo próprio, aquisição de veículos, despesas com viagens (avião, ônibus, etc.) e outros (estacionamento, pedágio, acessórios para veículos e seguro obrigatório).Todos esses índices seguem um mesmo padrão: quanto mais a família ganha, mais gasta. Por exemplo, em média, uma família com rendimentos entre R$ 1 mil e R$ 1,2 mil coloca 3,15% do seu dinheiro na aquisição de veículos. Já as famílias com renda superior a R$ 6 mil costumam investir 8,21%.Além disso, há outro indicador importante. Em relação ao transporte urbano, quanto mais pobre é a família, maior é o gasto mensal com essa despesa. Quem tem renda variando de R$ 400 a R$ 1,6 mil gasta mais de 3% dos seus rendimentos. Já na faixa entre R$ 2 mil e R$ 3 mil, percentual cai para 2,52%; até chegar a 0,87% para famílias com renda acima de R$ 6 mil. Ou seja, a redução das tarifas do transporte público distribui renda ao permitir que a população de baixa renda invista seu dinheiro em outros serviços, tais como alimentação ou educação.

ESPOLIAÇÃO DO TRABALHADOR

“O passe livre não deve ser pensado apenas em função do deslocamento casa-escola. A educação da juventude não pode e nem deve ser confundida apenas com sua escolarização. O passe livre deve garantir também o deslocamento dos estudantes para outros espaços além da escola onde se dê sua formação cultural: estádios de futebol, quadras de esporte, casas de espetáculos, praças públicas, cinemas, teatros, bibliotecas, etc.”, argumenta Manolo, do Movimento Passe Livre de Salvador (BA).No entanto, nos últimos dez anos, o processo que ocorreu foi o inverso: as tarifas do transporte público só aumentaram em relação a inflação, como mostra estudo do Ministério das Cidades. O levantamento mostra que, entre 1994 e 2003, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) acumulou 122,9% de aumento, mas as tarifas de ônibus urbanos em São Paulo tiveram alta de 240%. As de Florianópolis, Fortaleza, Manaus e São Luís subiram 275%. Já as de Salvador e do Rio de Janeiro ficaram 328,6% mais caras. O aumento foi, ainda, de 382,8% em Teresina e de 400% em Porto Velho e Rio Branco. “O impacto desses aumentos na renda dos trabalhadores, diante deste descompasso com índices inflacionários bastante usuais nas negociações salariais, é mais que evidente”, protesta Manolo.Tomás Moreira, coordenador do Instituto Cidade em Movimento e de Planos Diretores do Instituto Pólis, assegura que a gestão dos transporte no Brasil é certamente concentradora de renda. “Onde há mais qualidade e acesso à mobilidade é onde há mais riqueza. É só ver onde tem metrô, ônibus e trem. É no mesmo lugar onde muitos dos habitantes têm transporte próprio. Ora, deveria ser ao contrário”, observa Moreira.Para ele, na maioria das cidades, a privatização agravou esse quadro, apesar de seus efeitos estarem diretamente relacionados com a gestão pública e sua relação com as empresas de transporte. A busca pelo lucro leva os empresários a disputar as linhas centrais e desprezar as periféricas. Para maximizar os investimentos, superlotam e precarizam os veículos - além dos aumentos nas tarifas.Segundo Moreira, o certo seria o trabalhador não pagar o transporte, mas sim o empregador. No entanto, ele vê no Bilhete Único, implementado em São Paulo (SP) em 2004, uma proposta intermediária interessante. Num intervalo de duas horas, o passageiro pode pegar a quantidade ônibus que precisar. Moreira garante que isso reduziu a quantidade de pessoas que se deslocam a pé por falta de acesso ou dinheiro - parcela equivalente a 40% da população, segundo estudo divulgado em 2005 pelo Ministério das Cidades.

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